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quarta-feira, 11 de julho de 2012

Moçambique #61


17-06-2012

Um dia digno de ser o último foi o que planeámos e executámos, apesar do melhor vir sempre sem avisar.

Voltámos à feira de artesanato, pois as meninas tinham ouvido falar dos batiks: um pedaço de pano branco onde desenha um artista e vai-se mergulhando em tinta de determinada cor para depois bloqueá-la, com cera, a parte que queremos manter assim. Enceramos logo no início aquelas que queremos manter brancas e vai-se mergulhando em várias cores e encerando. Os padrões são tudo aquilo que tenha um toque africano. E como o mundo não é maior que uma castanha de caju, encontrámos a Viki, que conhecemos em Homoíne, nas redondezas.

Siga de riquexó para a praia que nos disseram ser a melhor, a Marés, na Costa do Sol, a 5 quilómetros da casa. Em termos de beleza natural já sabíamos que não ia ser espectacular mas amei as horas lá passadas. Quase todos os portugueses estavam na esplanada mas esta tinha uma estrada à frente e só então a praia. E como nós já somos praticamente moçambicanas, quisemos o real deal. Abastecemo-nos com um papo seco enorme e quentinho, do centro comercial colado, mais uma coca-cola, e fomos estender as capolanas em frente às dezenas de barracas a vender frango de churrasco e batata frita (aqui pouco existe o conceito de diferenciação), às cadeiras e mesas de plástico e aos comensais locais. Estivemos sempre a mudar de spot porque a maré não parou de subir e cedo não havia espaço para nós e os que queriam jogar à bola! Os miúdos tomavam banho de roupa, os mais velhos bebiam Laurentinas e estas (na praia ainda mais) branquinhas de papo para o ar, como se nunca tivessem estado noutro lugar. Fez-me gostar ainda mais deste país, sentir-me em casa num Domingo à tarde entre amigas.

O fim de dia foi passado em “até já”s, presenciais, telefónicos e escritos, e a fazer a mala.

No aeroporto, encontrei os maiores atrasados até à data, começando pelo segurança do raio X, que perguntou se eu não lhe queria deixar os meticais que me tinham sobrado, passando pelas funcionárias de todas as lojas que não tinham troco e achavam isso normalíssimo, e acabando nos quatro do posto de controlo dos passaportes, que me gozaram à força toda e ameaçaram de multa por causa do visto que tinha expirado ontem. Vão-se fumar, como gostam de dizer! Enfim, valeu a vitória de Portugal a que assistimos com os outros viajantes nos ecrãs espalhados por lá!

Não gosto de conclusões, de resumos, nem de melancolias mas este relato tem que acabar neste dia de regresso. Sei que Moçambique não me vai sair dos ossos e as lições a tirar se devem repercutir para o resto da minha vida. Não me cabe a mim ter já noção de quais as são mas ao tentar deixar aquilo que trazia comigo, levo lembranças de valor incalculável, caras muito amigas, mensagens poéticas no telemóvel e muita, muita dança e alegria. Não há como negá-lo, esta malta dá aquilo que não tem, através duma maneira de viver mais simples que a nossa mas dando valor ao que interessa. Vou com uma pitada de maturidade mas de consciência duma enorme inexperiência em relação a tudo. É como se se tivesse aberto mais uma porta para mim. Vou, mas sabendo que na ida está sempre latente um regresso.

Moçambique #60


16-06-2012


Quem diria que chegávamos a vir a um museu em Moçambique? O escolhido foi o de História Natural, onde vimos muito bicho empalhado, artefactos de tribos africanas de há muitos anos mas que, hoje em dia, se continuam a usar, e ilustrações da fauna e flora com ar do século passado. Mas o meu recanto preferido foi o de um conjunto de embriões de elefante, em várias fases de gestação, conservados em “formaldeído”, acompanhados duma explicação de que tinha sido “o Sr. Carreira a aproveitá-los duma matança, feita por outros, e que hoje isto não seria possível de replicar”. Andámos na nossa vidinha, feitas independentes, com o nosso melhor amigo, o riquexó ou “chopela”. É rápido, fresco, barato e só é pena não haver mais cá nem em Portugal!

Num instante pusemo-nos no mercado central, onde a secção da fruta foi, sem dúvida, a melhor por onde já passei e que, por isso mesmo, me surpreendeu. Aviámo-nos de tudo o que é indispensável levar connosco na mala: caju, cana-de-açúcar, mandioca, e banana-maçã. O mercado tinha também uma parte, maravilhosa, dedicada a cabelos (com, literalmente, baldes de amaciador e tudo quando é cremes), outra de artesanato, peças de mecânica e os mais variados alimentos.

Verdadeiramente tugas e por indicação da Roxanne, amiga conhecida em Lisboa mas de cá, fomos ao restaurante/padaria/pastelaria dos pais dela, o Cristal, para satisfazer os nossos desejos mais profundos de gordas. Tínhamos à escolha: cozido à portuguesa, pastéis de bacalhau, bolos de arroz, marisco… tudo o que nos pudesse apetecer! Eu fiquei-me por um croissant com queijo e uma coca-cola, que me souberam a pato.

Acabámos o dia numa festa da Heineken, no Desportivo na baixa da cidade, promovida pelo irmão Licussa mais velho, com as manas já nossas amigas e que são duma simpatia incalculável, tal como a maioria das pessoas que temos vindo a conhecer.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Moçambique #58


14-06-2012
Maputo, Moçambique

Ficámos mal habituadas com o autocarro que nos tinha levado para o Chimoio, que mais parecia um avião. Precisávamos de ter o real deal, e foi o que não faltou!

O Frei quase levou as mãos à cabeça quando olhou para dentro do autocarro mas nós só nos conseguíamos rir. Acordámos às 4:15 e partimos um bocadinho antes das 7:00 do Inchope numa viatura que só consigo descrever como um chapa de 100 lugares ou o que seria a Carris há 20 anos, com amontoados de malas em tudo quanto era espaço sem cadeiras. Ar condicionado é uma miragem, casa-de-banho foi um bidé numa paragem a meio das 14 horas até Maputo, o condutor era vesgo e sempre o mesmo, a velocidade furiosa e, a cada ultrapassagem, parecia que estávamos uma sala de cinema, com o público sempre em suspense e sustendo a respiração. Eu, cada vez que olhava pelo vidro dianteiro, rezava 3 Avé Marias.

A antecipação foi pior do que a viagem em si. Bebi pouca água para aguentar as longas horas sentada; diverti-me a ver o condutor acelerar enquanto alguns faziam as suas necessidades a um metro do autocarro quando este parava para alguém descer; maravilhei-me com os negócios que é possível fazer através duma janela de camioneta; e exasperei com as inspecções a cada mudança de distrito (que consistem num guarda a olhar para os passageiros e, num ou noutro caso, aceitar uns trocos do condutor).

Mas um dos melhores momentos foi, sem dúvida, o manager da camioneta abrir as luzes quando já estava tudo em escuridão total e chamar: “Carolina? Estão a pedir para atender o telemóvel!” pois o Frei Filipe estava a tentar ligar-me e, vendo que eu não atendia, ligou para ele, pois está claro.

Agora estou de volta ao local onde tudo começou e que, na altura, me provocou muitos sentimentos díspares. De dúvida, de motivação, de medo e de curiosidade. Foi uma micro-vida que se deu entretanto. Ainda não tenho respostas, só perguntas: o que será que transformei ou afectei, para melhor e para pior? A quem influenciei e a quem passei despercebida? Como será voltar a casa e um dia regressar a Moçambique? O que mudou em mim e o que é que se mantém? Hoje só sei que as folhas e os lápis escasseiam, que estou quase tão branca como quando vim e que me sinto exausta mas em paz. 

Moçambique #57


13-06-2012

Não há coincidências e, no dia 13 de Junho, estamos numa paróquia apadroada pelo nosso Santo António. 

Temos missa celebrada pelo reitor, o Frei Miguel, da Universidade Católica de Moçambique, a 20 passos do nosso quarto.

É dia de festa, desta vez, não com broa e sardinha mas com frango, porco, batata frita e maionese – um prato dito típico mas que não é mais que a nossa salada russa. Como disse o Frei Filipe, por bebermos “pretinha”, ficamos com os “anjinhos na cabeça”. E se fosse só a Laurentina… é vinho português, espumante, Cutty Sark e Amarulla, um licor sul-africano tipo Baileys, que foi a minha escolha.

Foi um almoço para mais de 100 pessoas, entre alunos, pais, frades e irmãs. Com muita imaginação, fazia lembrar aquele salão de jantar do Harry Potter, com os cabeças da festa numa mesa comprida elevada, virados para os alunos, mas, desta vez, no salão paroquial erigido pelo Frei Vítor que também serve para celebrar a missa.

E não há festa que se preze sem dança e eu já entrei nesse espírito, quer seja para uma marabenta com os alunos ou a passada com um Frei.

Houve até umas peças preparadas pelos alunos: cantaram, dançaram e fizeram teatro (que continuam, para nós, e não somos as únicas, a serem imperceptíveis). Admiro-os muito por criarem sempre estes momentos que trazem sorrisos e muita descontracção. Apenas com um bater de palmas ritmado puseram toda a gente a dançar e a tal “alegria na pobreza” não deixa de ser constatada e é uma lição semelhante a outra que já trazia comigo, de que “só as pessoas entediantes é que se entediam”. E não há razão para não haver entretenimento quando, onde e como quer que seja.

Moçambique #57


12-06-2012

Mudamos de região e parece que estamos na nossa terra. Quase parece outra dimensão, ao vermos uma paisagem tão parecida com Portugal, mas apenas a um passo de distância da casa onde estamos a dormir. Metemo-nos na estrada e só vejo montanhas enormes, com muito calhau, rodeada de pinheiros, eucaliptos e o céu até se encheu de algumas nuvens mais escuras. Não fosse a vastidão imensa, homens, mulheres e crianças a levarem cana-de-açúcar à cabeça e os constantes chapas entre Chimoio e Machipanda, diria que estava na A8 a caminho de Coimbra.

Fomos visitar Manica e o Frei Calisto que nos levou à quinta monumental que estão a tentar reabilitar. São 150 hectares de terra fértil, com um riacho à entrada e todo o tipo de árvores já crescidas, entre elas abacateiros e lichieiras. É preciso muito trabalho para pô-las a render e o Frei diz que, primeiro, é necessário ter lá guardas já que, à noite, há quem venha roubar a fruta e, como aconteceu recentemente, as tubagens que transportam a água.

Houve ainda tempo, pela manhã, de ir, literalmente, pôr um pé no Zimbabwe e voltar para almoçar na missão. Comemos peixe de rio, que os Freis adoram, mas que não é, de todo, o meu cup of tea.
De seguida, a tão esperada e falada visita à farmácia natural das Irmãs! Em Msika, chama-se Centro Salvatoriano deTerapias Alternativas, e quem nos guiou por este sítio fascinante foi a Irmã Gladys. Fez-nos uma consulta e aprendemos muito sobre bons hábitos alimentares e de saúde, tais como: que não devemos beber nada gelado às refeições pois solidifica a comida e gordura no estômago, dificultando a digestão, a absorção do que é bom e a eliminação do que é mau; que devemos comer 60% de alimentos básicos e 40% de ácidos, quando fazemos o contrário; e os produtos animais devem ser consumidos o menos possível.

A farmácia tinha um cheiro muito calmante, vindo das milhentas ervas lá vendidas, que curam, basicamente, tudo. Trouxe umas para fazer chá e melhorar a pele, denominadas Parinari e Nim mas que também servem como “Depurativo do sangue, esterilidade masculina e feminina, malária, tónico cardíaco, pneumonia, febres, doenças respiratórias, reumatismo, diurético”, a primeira e “Malaria, fungos, diabetes, dermatites, diarreia, vermífuga, espermicida, antibacteriana, ulcera, antiviral, eczemas, psoriase, tumores, abaixa a tensão arterial, cândida, anti-térmica, micoses, membranas, mucosas, pulmão, intestino, salmonela”, a última. Assim fica já tudo despachado, just in case. Trouxe ainda uma pomada para a cara, dois frasquinhos de ginseng para a fadiga e moringa (claro!), que também cura o que se tem e/ou possa vir a ter e já o sabíamos devido aos ensinamentos contínuos e promoção das propriedades miraculosas da mesma, transmitidas pelo Frei Filipe. A 50 meticais cada, se não resultar, não há-de fazer assim muito estrago… não é? Espero que com tanto saco de erva verde não nos retenham no aeroporto.

Moçambique #56


11-06-2012

In the jungle, the mighty jungle..!

Esta terra não pára de me surpreender. A beleza natural é imbatível e indiscutível. No Parque Nacional da Gorongosa, conseguimos ver as paisagens mais maravilhosas, sem falar dos animais! O Frei Filipe acompanhou-nos (e dá sempre ar de ser o nosso guarda-costas) e alugámos um jipe com os bancos elevados e sem vidros que levam até dez pessoas. Como tínhamos falado para lá com antecedência para ir a uma hora fora do habitual e é época baixa, ficámos com o carro só para nós, tal como o guia, que não poderia deixar de ter outro nome que não, Simba!

A atracção principal é o poder vislumbrar os grandes animais da selva, como o leão, o búfalo e o elefante. Nós conseguimos ver um deles, mas não sei se não gostei mais da vegetação e das árvores gloriosas ao nosso redor. Parece que, a cada vinte minutos, estava noutro país, noutro cenário, mas sempre de fazer cair o queixo. Desde um mais verde e escuro, outro pantanoso e húmido, outro seco e de tons terra, com muitos pontinhos pretos de árvores e animais, com embondeiros e acácias amarelas... Não havia como enjoar e chegou a um ponto em que parecia estar numa espécie de hipnose, com tanto cenário incrível de seguida. Os animais que os habitam são a cereja no topo do bolo. Muito nos rimos a avistar os facoceros e a gritar "Olha o Pumba! Olha outro Pumba!" e eles a "sorrirem" para nós; a tirar fotografias aos impalas (que não eram o Bambi, diz o guia) e eles a fazerem pose; os diferentes macacos sentados na árvore; um tipo de pássaro lindo com cores desde o azul ao cor-de-rosa; e, ao regresso, quando já estávamos saciados, o Simba conseguiu encontrar dois elefantes que também me deram um momento, só um, para fotografar.

Também não podíamos ter ido em melhor companhia, com o Frei que é doido pela vida selvagem e ia contando pormenores sobre as espécies. Outros dos seus temas de eleição também veio ao de cima: que o parque não estava totalmente repovoado por causa da guerra e que a estrada até lá está num estado lastimável porque nesta região ninguém vota Frelimo e, assim, o Governo não investe no que é uma das maiores atracções do país e do continente. 

Moçambique #55


10-06-2012

"Como me viaja!" é uma expressão daqui que eu adoro. Pode ser usada, mais frequentemente, para nos referirmos a uma pessoa, mas não só.

Voltadas às viagens, hoje, Domingo, foi mesmo dia de laró. Depois da missa aqui na Igreja ao lado da casa, tive um mata-bicho de rainha, com ovos mexidos, queijo, pão, chá verde, café... Esta casa aqui é um luxo, com televisão por cabo e Laurentinas no frigorífico.

O Frei Filipe prometeu levar-nos à Cabeça do Velho, um conjunto de umas quantas montanhas, que, duma certa posição, tomam – adivinhe-se – o perfil da cabeça dum velho. Aparecem duma planície muito vasta e alisada, vêm-se aqui do centro da cidade. Foi a montanha mais fácil a que alguma vez subi e com uma vista muito diferente do habitual no Gerês ou na Serra da Estrela. Em 25 minutos, nem isso, estávamos no cimo e a ver toda a cidade, uma serra maior lá longe, as queimadas das populações espalhadas pelo mato... Foi uma grande sensação, estar lá em cima. A terra tinha outra cor, já não argilosa, mas a mais comum para nós, a castanha, por estar ao pé dum pântano.

O Frei também adorou ser o nosso fotógrafo profissional no cume e nós aproveitámos. Tirámos mais fotografias juntas do que em quase dois meses! Ele é que orientava o ângulo melhor, a pose, a pedra ou a árvore onde devíamos estar empoleiradas.

Continuo a achar muito peculiar o quanto toda a gente acredita nos espíritos e se guiam pelas suas vontades. Todos diziam que a montanha é lugar de peregrinação para fazer rituais e sacrifícios para afastar o mau-olhado e encontrámos um grupo a gritar uns impropérios não sei bem com que propósito. O melhor é quando, com um encolher de ombros, dizem "Isto é África, onde há espíritos... Lá na Europa não há nada disto, de certeza, pois não?"

Moçambique #54


09-06-2012
Chimoio, Manica, Moçambique

Recomeçou o nosso status de turista, agora numa terra que já não é totalmente desconhecida.

Deixámos Jangamo ao fim da manhã, ansiosas por saber como seria a camioneta onde iríamos passar dez horas enfiadas. As expectativas foram mais que superadas, na companhia Turismo Carlos Oliveira, que mais parecia o interior dum avião. Com direito a lanchinho com sumo Ceres e tudo! Um luxo. Quem testemunhou a nossa reacção ao vermos uma maçã e uma ementa por onde escolher o almoço devia achar que estivemos toda a vida rodeadas de mato e nada mais. Encomendámos um franguinho com batatas fritas logo no início para que, na paragem seguinte, o fôssemos pagar e buscar. Os mantimentos com que nos tínhamos armado ficam para outras núpcias. Claro que este não é o transporte standard e os Freis mimam-nos muito. Não são as que se vêm a cair de podre, janelas todas abertas com as malas seguras por uma corda no tejadilho.

No caminho, houve tempo para ler quase metade do Cem Anos de Solidão, conversar e ver a paisagem. Passámos pelo Rio Save para sair da província de Inhambane e agora a vegetação é diferente, de um verde mais escuro e seco, com embondeiros incluídos e a fazer lembrar O Rei Leão.

O pôr-do-sol e as cores a esta hora são sempre cativantes e, quando ficou tudo escuro, passámos por queimadas muito extensas à beira da estrada, monstruosas, que aqueciam os vidros da janela e iluminavam o mato ao ponto de parecer que o sol estava a nascer lá longe.

Antes de chegarmos à missão, demos boleia, guiados pelo Frei Bambo - "o Frei mais preguiçoso e malandro" - a um casal londrino que andava a viajar há sete meses e estava agora a gozar o último. Já tinham passado pela América do Sul, Central, Ásia, e agora África. Estão quase a ir para casa, não sem antes ver a Tanzânia, o Malawi e o Uganda mas vão ficar sem ver a Etiópia porque o visto necessário para entrar ocupa uma folha inteira de passaporte, e já não têm espaço para isso! Um motivo épico para terminar uma viagem.

O Frei Filipe perguntou o que tinha gostado menos, nesta estadia em Moçambique, o que não estava à espera, e o que me tinha impressionado mais. À primeira, respondo: as viagens de chapa, a venderem peixe lá dentro com um garrafão de combustível poisado em cima, por exemplo. À segunda: a vegetação tão densa e verde, pois sempre imaginei tudo seco e triste. À terceira, só no fim da viagem posso dizer e não vai dar para resumir numa só frase.

Moçambique #53

08-06-2012

De volta à nossa casa mãe, Jangamo. Parece já ter sido há tanto tempo que daqui saímos…

Fomos matar saudades das nossas queridas irmãs e dos nossos meninos. Ficaram muito contentes, apreensivos ao princípio, e os miminhos foram mais que muitos e de encher o coração. Foi tão bom receber os abracinhos, festinhas e sorrisos carinhosos deles! Se me deixassem, levava uns quantos no bolso. Foi um momento muito especial.

Almoçámos com as Irmãs Teresa, Arminda e Lucília que nos mimaram, mais uma vez, e tirei a barriga de misérias com o concentrado de maracujá e biscoitos caseiros. A Irmã Teresa vai já esta semana para Portugal para regressar só em Setembro e, assim sendo, está prometido um encontro para breve. Quanto às restantes... "só as montanhas é que nunca se encontram", como disse a Irmã Lucília. E tem toda a razão. Quem diria que alguma vez ia pôr os pés em sítios, tão longínquos e afastados da minha realidade, como Cumbana e Namaacha, Bongo e Inhampupo?! Os trilhos desta vida não são possíveis de mapear e sempre com mais para oferecer do que aquilo com que conseguimos sonhar...

Antes da última paragem na Maxixe para preparar a viagem ao centro durante esta última semana, conseguimos encontrar o tão desejado piri-piri da Dona Rachida (!), uma produtora local que distribui pelas barraquinhas à beira da estrada. Comprámos o normal - de limão - e um de manga, a 70 meticais cada. Na Maxixe, levantamos dinheiro, a Joana compra uma mochila (já que se entusiasmou e ofereceu a sua no sorteio) e ainda mantimentos, nos chineses (que devem esfregar as mãos de contentes cada vez que lá entramos.

De regresso a casa, dei uma volta até à mangueira para fazer umas fotografias que, pecado capital, ainda não me tinha aventurado pelas redondezas. E apenas por preguiça e falta de coragem porque já sabia que o resultado ia ser bom.

Para terminar o dia em beleza, uma noite de mini-recreação, com frango de churrasco e batata-frita, olhar este céu estúpido e, com as minhas queridas companheiras, recriar cenas já vividas e ver fotografias e vídeos da nossa "aventura no desconhecido".

Como respondeu a Joana, ao que será de nós as duas separadas, "Não somos".

domingo, 24 de junho de 2012

Moçambique #52


07-06-2012
Jangamo, Inhambane, Moçambique

Outro dia de despedida, outro dia frenético.

"Nada é fácil" é uma verdade já confirmada em Moçambique. As pessoas "hão-de ir", "hão-de vir", "havemos de fazer" e o que for, "há-de ser". Nunca com sentido de urgência ou com prazos previamente estabelecidos.

Hoje foi a saga da impressão dos cadernos de apontamentos que queríamos deixar aos alunos com todas as disciplinas e aulas que demos, desde o espanhol ao seminário da Internet. Conseguimos resumir tudo em 24 páginas mas precisávamos de imprimir uma vez para pôr a fotocopiar na escola secundária. Os computadores têm vírus que destroem os ficheiros, a impressora não quer funcionar, as pens não são reconhecidas, a electricidade vai abaixo, não temos o software da impressora... Tudo o que pode acontecer, acontece, e a salvação é um dos alunos ir à vila de bicicleta buscar um cd para usar no computador da Irmã Laurinda com o ficheiro. Desde as 6:30 às 9:30. De seguida, pôr a fotocopiar. O homem assegurou-nos que tinha folhas suficientes, "não tem problema", mas deve ter feito mal as contas, ou não as fez, e achou que uma resma chegava para 2500 cópias... Claro que ao fim dos primeiros dez cadernos ficou quatro horas à espera que o amigo fosse comprar mais. Nisto é hora de nos irmos embora e ainda tinha que faltar o toner. É nestes momentos em que baixamos os braços e nos entregamos à vontade dos elementos. Distribuímos os cadernos que ficaram prontos, o dinheiro para que a Lina pagasse quando estivesse o trabalho concluído e tudo há-de ficar resolvido.

Fomos almoçar ao refeitório com os alunos internos, o que já devíamos ter feito há mais tempo. As condições são as mais básicas, com talheres e copos de plástico insuficientes para servir a todos e, dizem eles, a ementa não variar muito entre xima e feijão e arroz e feijão. Hoje foi arroz com caril de amendoim de peixe, não sei se por ser dia de festa. Organizámos um sorteio das nossas coisas que podíamos deixar, entre roupa, lápis, um guarda-chuva, mochilas e mesmo umas colunas. Ficaram loucos, a cara de felicidade deles foi impagável. O Pupai, um dos alunos que não precisa de fazer nada para que eu queira estar a todo o momento a olhar para ele sabendo que me vou rir, recebeu um guarda-chuva, que achou apropriado levar aberto para a aula seguinte.

Na despedida, escreveram-nos mensagens amorosas, dedicatórias e até lembranças para levarmos. As frases são sempre muito poéticas: "Vós amo como se fossen o meu curação direito. Não me esquenci do voço cabelo", "Vocês foram uma segunda mãe para nós no mundo das ciências" e a história do Bresneves sobre um pequeno-almoço com "pri-pir" entre mim e ele. Disseram que nós os íamos abandonar, que agora iam emagrecer e deixar de conseguir dormir, que temos que voltar... Estes miúdos não existem e até houve choradeira sentida mesmo nos últimos momentos. Hoje estou simplesmente exausta e não consegui ainda absorver tudo e perceber como me sinto, mas de certeza que levo muitos momentos comigo de cada um deles.

No caminho para Jangamo, soubémos que o Frei Filipe ainda estava em Maputo e achámos que assim mais valia voltar para Maxixe e deixar tudo tratado com as fotocópias. Mas o Frei Viegas achou que estava toda a gente a brincar com ele e que nós tínhamos era que ir para Jangamo. Ainda parámos nos chineses para comprar um telemóvel à Lina - que já tem quase 16 anos, afastada dos pais e não consegue falar com ninguém - e a Sofia ofereceu o dela ao Júlio. O Frei também não deve ter achado graça nenhuma e nem sequer se chegou a despedir de nós com mais do que um "Tchau" virando costas... Não é alguém que vamos levar no coração, com certeza, mas também não é nada que não me impeça de dormir.

A Lena telefonou e foi tão bom ouvir a voz dela, já sinto falta dos amigos e família, é sinal que também gosto muito do que me espera em Portugal.

Moçambique #51


06-06-2012

Fomos, mais uma vez, pedir a pen da net ao Director Fadugo - o homem com ar mais assustador à face da Terra - mas vale a pena, para poder enviar uns e-mails, dar notícias e, especialmente hoje, que precisei de fazer um teste online para o processo de recrutamento da Philip Morris. Não estava com o cérebro propriamente descansado, mas teve que ser.

E falando em pedir, não posso deixar de anotar a expressão aqui usada para tudo, o "Estou a pedir". À mesa, "estou a pedir a água"; com a máquina fotográfica, "peço para ver"; para combinar um sítio, "estou a pedir para ser na escola"... Também acho muita graça a usarem só "ainda", em vez de "ainda não". "O almoço já está? - Ainda."

A aula de espanhol, à falta de electricidade foi alumiada pela lua cheia e muito mais divertida. A frase preferida é "A mi me gusta mi cariño/mi novia" e cantámos a música do Pablo Albóran e da Carminho, o "Perdoname" que é sempre uma boa maneira de treinar a pronúncia.

A noite foi de convívio, a trocar mensagens de despedida, a "trançar" e a criar contas de e-mail e Facebook para a malta. 

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Moçambique #50


05-06-2012

Aula de informática? Não tínhamos chaves. Aula de matemática? Não havia luz. Ir ter aulas na carpintaria? Estavam eles em avaliação. Há sempre outros programas, é o que vale. Em vez disto, estivemos a jogar basket, a conversar com os miúdos e a assistir à chegada da nova aquisição da escola - uma iguana/crocodilo que um dos professores tinha apanhado no rio e trouxeram-no para ser estudado.

Voltámos a cumprir a nossa função de bibliotecárias, desta vez também "conselheiras profissionais". Vinham falar connosco e nós perguntávamos o que é que eles gostam, o que é que se imaginavam a fazer no futuro, onde, como é que lá podiam chegar... Nós falávamos da nossa vida, o que é que tínhamos feito até agora e de oportunidades que pudessem ser adequadas para eles. Foi mais uma conversa de amigos e a maior parte quer casar, ter filhos, a sua machamba e, eventualmente, criar um negócio de agro-pecuária. O Arlindo dizia que queria ir para Portugal.

Eles estavam mortos por tirar fotografias, na machamba que eles fizeram aqui na missão e connosco. Fizemos uma shoot no meio das alfaces, das cebolas e das couves, das quais eles estão muito orgulhosos e estão, realmente, preciosas. As fotografias, nem se fala.

Entrei na casa dos formadores para combinar a noite de cinema e fiquei impressionada. É uma divisão húmida, com muito pouca luz e que serve de escritório - com uma mesa com computador, televisão e outros aparelhos - de quarto, cozinha e sabe-se lá que mais. Um dos alunos, o Sacramento, e filho do formador Manuel, já me tinha dito que os professores ganhavam muito mal e que havia muito poucas vagas, mesmo assim, para os existentes. Isto porque o número de escolas só abrange um número ridículo de alunos comparado com o de crianças e jovens neste país. Que muitos também chegavam à 7ª classe sem saber ler nem escrever, não era estranho.

E a vida na escola também não é pêra doce, pelo menos nesta. Organizámos a noite de cinema, no salão paroquial com uma televisão emprestada e os Piratas das Caraíbas 4 pirateado (!) mas os miúdos pouco duraram até depois das 21:00. Já sabíamos que a Lina se levantava às 4:00 todos os dias menos ao Domingo, mas para pôr as coisas do pequeno-almoço na mesa, tomar banho e engomar o uniforme (mesmo assim, não há necessidade). Mas que todos eles têm que se levantar a essa hora... Só consegui olhar para eles com a maior admiração e perguntar-me o que seria de mim se me obrigassem a levantar para limpar a escola e tarefas do género. Ao meio-dia já eles têm um dia normal de trabalho no corpo! Será que há assim tanto com que os encarregar, 200 alunos, todos os dias? Misericórdia...

Por último, estava a Joana de cama com febre a subir muito rapidamente, e nós a achar que era duma distensão que ela se queixava na perna. Estava a ficar muito preocupada, porque de certeza que não era disso mas também não sabia de quê e não descia a febre mesmo com Brufen. Só depois ela se lembrou que tinha encontrado, há uns dias, uma carraça na perna que tinha deixado marca e lá a minha mãezinha disse para tomar uma bomba antibiótica, que fez baixar a temperatura do corpo quase imediatamente e normalizá-la passadas umas horas. Não me venham dizer que a minha maleta farmacêutica é mariquice e que se deve tratar tudo naturalmente, não.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Moçambique #49


04-06-2012

"Eu estou bem", é como muitos por cá respondem a um "Boa tarde" ou "Bom dia". E, neste caso, aplica-se, eu estou bem.

Para além das aulas, estamos também cá para o convívio e hoje tive uma dose intensiva de conversa de um dos alunos, o Francisco, que tem o dom de conseguir falar durante o tempo que for necessário, encadeando tema atrás de tema duma maneira impressionante e nos deixa de boca aberta mas sem sair uma única palavra.

Ele é um miúdo extraordinário, com uma vontade de fazer incrível e com os mais variados interesses, desde a apicultura ao kung fu. Ficou órfão recentemente mas não se acanha nada em falar disso e tem um espírito muito despachado. Só depois relembrando toda a conversa é que descobri as saídas fabulosas que ele tinha tido, são tantas que não dá para acompanhar e mantenho sempre um ar seriíssimo. "Porque eu pressenti a morte do meu pai quando estava no meu quarto, em Maputo - lá eu estudo com os cadernos em cima da cama, mas também temos sofás - e tenho uma ventoinha - a ventoinha tem vários botões - mas depois desliguei a ventoinha mas ela continuou a dar e era ela que me virava as páginas e, nesse momento, tive uma imagem do meu pai a morrer. Foram à escola e disseram à minha prima mas não disseram a mim e ela estava a falar com a minha tia e disse que o meu pai tinha morrido mas achou que eu não tinha ouvido por causa do meu problema de audição mas eu também fingi que não tinha ouvido. Depois disseram que me estavam a chamar em casa e eu vi lá muita gente reunida e, como ainda era muito infantil, pensei - Será que é um casamento? Porque quando os meus pais se casaram também havia muitas pessoas. Mas depois fui chorar para o meu quarto só que os meus primos apareceram e como eu nessa altura era muito infantil e achava que os homens não choravam, limpei as lágrimas para eles não verem mas não por muito tempo, depois continuei a chorar. Mas depois a família do meu pai queria bater na minha mãe porque dizia que ela é que tinha enviado espíritos para o meu pai para o matar e ficaram todos zangados sem se falar". Falou também da Igreja Universal, de como o Fernando Picane é obreiro e ele próprio só tem poderes por causa da fé dele. Quando a Gina Cabral estava com espíritos, chamaram os dois e o Júlio e o Picane trouxe azeite e água que pôs na Gina e não resultou, então passou a energia para ele e a Gina começou a correr feita louca. Ninguém a conseguia agarrar e, só quando ele passou o poder para o Júlio, é que a conseguiram parar. Outro, de como o trouxeram aqui para a escola, porque ele pensava que vinha para um estúdio de música mas depois passados dois dias viu "Naa, isto não é um estúdio de música!". Ao início não gostou mas depois começou-se a interessar pelos animais e a fazer amigos mas a missão dele é ajudar as pessoas de Nhampopo que são analfabetas. Este rapaz não existe, devia ser filmado.

À noite, com uma lua cheia poderosa, a Sofia deu finalmente a aula de Origami e eu fiquei maravilhada por, com os alunos, aprender a fazer uma caixa! Eles adoraram, mais ainda fazer rosas, corações e sapos enquanto ouvíamos a música que faz furor agora, a "Puxa Mazambane", hit este que quer dizer, "Puxa a batata" e é sobre trabalhar na machamba com um ritmo como eu nunca ouvi, que é impossível não dançar e não nos desmancharmos a rir. Já se tornou o meu toque de telemóvel.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Moçambique #48


03-06-2012

Dia de pseudo-ressaca. O meu corpo quis acordar às 7:00, já está bem treinado, mesmo só com 3 horas de sono, mas obriguei-o a preguiçar até às 11:30. Quando a Lina me disse que acordou às 6:00 para ir à missa sofri muito por ela. Que martírio.

As pernas doem de dançar a passada mas o espírito está alegre e leve.

A professora de Educação Física/Biologia tem estado doente com malária e não pôde vir ao torneio mas, nem isso, nem a chuva, impediram que ele se realizasse. Com os atrasos do costume, jogaram as três equipas entre si. Uma delas, que jogou duas partidas, soube logo que era vencedora antes das outras jogarem o terceiro jogo mas quiseram, mesmo assim, lutar para não ficar em último, para não serem “cuanhamas”, como eles dizem.

Arbitrámos os jogos e entregámos os prémios, uma pulseira de plástico de equipas de futebol, tipo Arsenal e Real Madrid, e uma caneta. Caneta essa que o Fernando amou porque "não é preciso fazer força!", é só rodar a parte de cima para o lado direito e não carregar no topo. Extraordinária!

Mas toda a senhora ressaca pede gordura e, nos trópicos, isso não se altera. Felizmente, foi falso alarme a explosão do fogão e forno por isso aventurámo-nos a fazer um bolo de chocolate. Feito a olho, sem fermento, com uma barra de chocolate dos chineses e uma forma que vazou, o resultado... podia ter sido melhor. Cru, sensaborão e muito denso, deu para amainar a gula que uma salada de frutas, por sua vez deliciosa, não conseguiu afugentar.

Ao lanche, avistei uma garrafa de piri-piri, que andava com curiosidade em provar e que caiu muito bem com pão com manteiga e sal. Era delicioso, não só picante, tem imenso sabor! Mais um kit para levar comigo. Já combinámos que, à volta, vamos fazer uma festa de comida, à gordas assumidas, com tudo o que é bom: pizza, gelado, comida do Nood, bolinhas caseiros... e imediatamente a seguir ir parar ao hospital com uma apendicite e/ou congestão.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Moçambique #47


02-06-2012 

Preparar a rave moçambicana durante o dia, "brincar" à noite!

Fomos comprar os refrescos para os alunos e Laurentinas para os formadores que, inevitavelmente, acabaram também na mão dos primeiros. Dissemos que era só para os maiores de idade e não me parece ter havido algum problema. Claro que as bebidas não foram suficientes para o que viriam a ser 8 horas de festa. Duraram umas 3, se tanto!

Foi até não aguentar mais das pernas, entre lambadas, passadas, marabenta e música internacional, muito dançámos! As miúdas deliravam a dançar com um dos formadores, que eu acho assustador, e todos gostam dos "esquemas", em que fazem todos o mesmo passo, pelo meio. Foi dançar por prazer, para enxotar a tristeza e aperfeiçoar uma arte. Eles são peritos e amorosos em ensinar-nos. O melhor são mesmo os de metro e meio, a dançar com as de um e sessenta e cinco ou, em último caso, agarrados a uma cadeira!

A sala tinha sido decorada com papéis em branco para eles nos deixarem dedicatórias e mensagens de despedida. Trouxemos e guardámos, cada frase é melhor que a outra. "Amo a vida, amo as três garotinhas Sofia, Joana e Carolina idem em paz que o são Francisco de Assis vos acompanhe sucessos para vossa todo vida." e " LEMPRESE DE NOS ONDE ESTIVEREN QUI TANBE VAMOS SE LENBRAR DE VÓS".

Outros acharam por bem que estas fossem privadas e enviaram através de mensagem para o telemóvel. E liam o seguinte: "Decatoria Ja parou para pensar o canto è lindo e orivel uma dspedida a melhores amigas so uma lenbresa ardendo rezumindo as paginas d vida em cada lagrimas deramada d um lindo adeus." e "eu so uma moxa mto social nao xtress cm ninguem apenas sou invegada, mais eu gostei mto de voces, axim k vao embora pdem crer k kuand eu pder irei lgar vos, amo vos. Sofia, carolina e joana"

Precioso.

sábado, 28 de abril de 2012

Moçambique #5

21-04-2012
Último dia dos nossos companheiros de viagem connosco. O Carlos, o Sérgio e o Frei Vítor vão continuar para outras missões até dia 1, quando voltam para Portugal.
Fomos visitar as Missionárias de Maria em Guíua e o cemitério onde estão enterrados vários formandos das missões, que há alguns anos foram mortos por rebeldes moçambicanos que eram a Igreja Católica. O Frei fez questão que lá passássemos a ver as campas com os nomes todos mas não é o melhor sítio para levar três miúdas que vão ficar em casa de frades por cá…
Conhecemos uma menina amorosa, a Rute, que nos mostrou o caminho até lá e tinha uns chinelos com a bandeira de Portugal.
Tirámos a tarde para lazer completo e fomos para uma zona ao pé do mar, que está cheia de lodges construídos por sul-africanos no sítio mais paradisíaco que se possa imaginar. Almoçámos na zona do Tofo, que no Verão está apinhada de turistas, mas que agora estava praticamente vazia mesmo estando um tempo óptimo para tomar banho, com água a uns 25 graus. Nota: vir cá passar férias no “Inverno” moçambicano. Ainda houve tempo depois para estar num bar de praia e do Frei Filipe, o nosso condutor do dia, tomar um whisky duplo.
Acabámos a visitar o Frei Salvador na paróquia de Inhambane. Fez-nos uma visita guiada, ofereceu um Ricofizinho e umas ervas secas, a moringa, que ele jura fazerem bem a tudo e indicou que o Frei Filipe tomasse aquilo todos os dias. Ainda gostava de levar a moringa para um laboratório e ver realmente o que é aquilo! Mais uma vez, que simpatia e acolhimento por parte de toda a gente. Sinto-me verdadeiramente confortável logo que conheço a maioria desta comunidade, que achava ser muito mais tímida e reservada mas carinho é aquilo que encontro sempre. Carinho com imensa consideração por nós, quando não merecemos nada disto, utilizando sempre um “obrigado” quando nós dizemos “boa tarde”.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Moçambique #4

20-04-2012
Um dos temas de conversa permanentes é a malária. Doença que não tratada se torna fatal, é facilmente confundida com uma gripe mas é transmitida através de um certo tipo de mosquito. Quem vem para África é avisado constantemente como prevenir, já que muita gente morre dela, mas é porque as pessoas simplesmente não têm os comprimidos para tomar pois se os tivessem, em dois três dias ficam curadas… Nós, para não apanharmos, andamos com pulseiras, sprays, tomamos comprimidos e mesmo assim quando vemos um mosquito fugimos como o diabo da cruz! Já ouvimos histórias de um que esteve cá quatro anos e só quando voltou para Itália é que apanhou; vários miúdos que não têm medicação e acabam por morrer; o Frei Vítor que cá esteve 7 anos e nunca teve; outra que é simplesmente imune; mas a minha preferida, nas palavras do Frei Filipe, foi “uma freira velhinha que pulverizou o quarto com Baigon antes de ir dormir e, de manhã, acordou no céu!”.
A malária é paralela à situação da diferença humana que sinto estando cá: ninguém sabe quem vai ser afetado, neste caso, por nascer numa condição melhor ou pior. Nós não temos mérito nenhum em ser mais ou menos desenvolvidos, em viver em casas mais confortáveis ou ter estudado durante mais anos. Muitas vezes, dou por mim a pensar que tenho que vir ensinar, educar, criar bases para a sustentabilidade mas, de verdade, que percentagem disto me é imputável? Tenho consciência que escolho pouco daquilo que sou, quer seja por onde nasci, por quem conheci ou por que oportunidades tive mas tenho a liberdade de o aceitar ou querer diferente. Por vezes, a simplicidade é o caminho mais difícil e é o que tenho retirado do convívio aqui em Inhambane.
Hoje estivemos em sítios estonteantes, como a Baía de Inhambane que, com a companhia de uma casquinha (camarão com açafrão, pão, ovo e outras especiarias) e uma preta (cerveja) não podem deixar ninguém indiferente e passámos depois para o outro lado, por 10 meticais, com as pessoas que fazem este percurso todos os dias e, obviamente, já achamos curioso é ver um branco por estes lados e, oh, também muito brincam os moçambicanos negros connosco quando nos vêem!
Estivemos também na escola onde vamos começar por dar apoio, aqui em Jangamo, liderada pela Irmã Teresa. A escolinha é a coisinha mais querida, vê-se que está muito estimada, tendo sempre em conta quanto se recebe e gasta, nada é desperdiçado. A Irmã é das pessoas mais despachadas que já conheci na minha vida, fez-nos o tour completo a explicar cada pormenor. Vamos estar com 80 meninos e meninas, entre os três e os cinco anos, que entram às sete da manhã e saiem pouco depois do meio-dia, com um lanchinho pelo meio. A irmã mostrou-nos as salinhas, o recreio, as árvores que têm e disse que cada família deve pagar à volta de 150 meticais por mês de maneira a criar um modelo sustentável e, quando ela já lá não estiver, ninguém seja mal habituado a que depois todos os serviços escolares funcionem de borla, porque assim ninguém volta a pegar no ensino por aqui. Acho que nos vamos dar muito bem, estou ansiosa que comece a escola!
Demos também um salto a Homoíne, onde vamos estar depois, já com jovens, liderados pelo Frei Viegas. Fiquei impressionada com o tamanho da missão e de todos os serviços que disponibiliza, entre oficinas, enfermaria, lar, catequese, escola… É impressionante ouvir os relatos do que havia aqui no passado e que se vê, pelo tamanho e número de casas existentes e que agora estão vazias. É uma pena que não se tenha continuado com a mesma força algo de valor como esta missão, pelas mais determinadas razões que mais tarde vou querer aprofundar. De qualquer maneira, foi um deleite conhecer as “velhinhas”, como lhes chamam, que vivem juntas com algumas crianças e encontrámos a preparar o almoço. Os “velhinhos” estão noutro sítio já que, nas palavras do Frei Viegas, “sabe-se lá o que aconteceria se se juntassem os dois!” Eu não estou a ver grande alvoroço a vir daí, mas ele lá sabe!
E como não podia deixar de ser, as novidades culturais são sempre muitas e hoje foi provar cana-de-açúcar e sumo de concentrado de maracujá, tudo natural e delicioso; ver videoclips de dança do Zimbabué e o reggae do Lucky Dube, de quem todos os Irmãos parecem ser fãs!
Utilizando a melhor expressão que tenho ouvido até hoje de despedida e a mais comum aqui,
Estamos juntos!

Moçambique #3

Jangamo, Inhambane, Moçambique
19-04-2012

Já quase me conformei com o facto de que paisagens estonteantes são muito difíceis de reproduzir. Acredito que uma fotografia deve contar, por si só, uma história, mas um lugar mágico tem mais que muitas para contar, não só uma, e daí a dificuldade em retratá-lo. Os mais dotados talvez a consigam transformar em palavras, mas eu resigno-me com a minha falta de competência nesta matéria. Não se pode reduzir apenas a uma dimensão um aperto de mão caloroso nem uma baía de perder de vista. Certos lugares hoje foram assim, felizmente.
Saímos de Maputo às 5:30 e às 8:30 mata-bichámos com outras irmãs Clarissas pelo caminho. Desta vez já estávamos mais a par do que fazem e por isso tivemos conversas mais descontraídas e foi como se tivéssemos vindo visitar amigas de há muito. É, mais uma vez, com a maior simpatia que nos recebem e ficam felizes ao saberem que iremos ficar dois meses em Inhambane, terra natal de uma delas. Ainda não têm mosteiro para estarem em clausura pois só chegaram aqui faz um ano. Assim, mostraram-nos o terreno onde já têm flores de todas as cores, erva-príncipe, mandioca, cajueiros e laranjeiras tal como dois canitos e um casal de porcos que, aquando do nascimento de uma cria, voltam aos donos originais para que as irmãs fiquem com o pequeno. A igreja era muito kitch, com as paredes pintadas de cor-de-rosa e verde-água, vitrais com cores primárias e um chão muito retro, com azulejo a preto e branco em diagonais. Vê-se que precisa de ser restaurada mas é muito especial e recebe alguns turistas.
Antes de nos despedirmos, ainda fomos requisitados para ajudar uma das irmãs, portuguesa, a tratar de arranjar a impressora. Todo o cenário era digno dum filme do Woody Allen – com coqueiros lá fora, a irmã com sotaque bracarense cerrado, óculos desproporcionalmente grandes para o tamanho da cara e hábito castanho e branco, a explicar-nos como já-tinha-instalado-a-impressora-toda-XPTO-Laserjet-mas-que-o-processo-de-instalação-não-tinha-acabado-porque-a-Internet-tinha-ido-abaixo-mas-agora-já-estava-a-funcionar-e-o-tone- e-novo-mas-o-Windows- tinha-ar-de-ser-o-primeiro-lançado-pela-Microsoft, isto enquanto estava sentada com o ecrã do computador inclinado para cima dela e a mexer no terço, que trazem sempre pendurado na corda, que podia ser que o Santíssimo também ajudasse nestas ocasiões.
Estrada fora, entrávamos agora num tipo de paisagem ligeiramente diferente, com mais coqueiros, terra muito argilosa e menos casas de cimento, mais de esteira, mas sempre com planície muito vasta. Quase a chegar a Inhambane, parámos na baía mais maravilhosa que alguma vez vi, de um azul e verde tão intensos… Provei água de coco e lenho, o coco quando é fresco e comprei o novo vício, caju torrado. Num contacto mais próximo com os vendedores e a malta que se reunia à nossa volta, deu para perceber que eles parecem um pouco tímidos ao início mas que têm o sorriso mais bonito quando este aparece.
Ao chegar à nossa casa, fomos recebidos pelo Frei Filipe Quenquene, que vai estar connosco nas próximas três semanas e por três rapazes que também cá vão estar e são aspirantes a frades, os postulantes. Houve gazela, arroz com um folha que ainda hei-de descobrir o que é, e uma iguaria típica – matapa. Consiste em folhas de mandioca e amendoim triturados com leite de coco. É absolutamente delicioso como molho a acompanhar o que quer que seja e não saio daqui sem estar expert em cozinhá-lo. E comê-lo, claro.
Tivemos ainda tempo de ir ao mercado e conhecer um bocadinho da cidade de Inhambane, que fica a cerca de 25 minutos de carro por uma estrada fascinante. Aí, vêm- se as povoações construídas em palhotas de uma espécie de areia cimentada, muito planas, no meio dos coqueiros e era como eu imaginaria África logo quando ouço a palavra. Há também homens, mulheres e crianças a tentar vender camarão ao estendê-lo em frente aos carros que por lá passam e muitos chapas a passar apinhados – mini-vans de 15 lugares onde vão umas 25 pessoas e que é o meio de transporte mais comum.
O mercado era muito rico, colorido e animado, com piri-piri, coco, tomates, abacaxis, artesanato, tabaco e tudo o que se possa precisar. Cheira-me que ainda vou passar aqui umas belas horas a deambular e deixar cá uns quantos meticais.
Temo-nos divertido com os nomes dos boteques, tais como – Contra Stress – e de mensagens que põe à porta de casa, em que a melhor até agora foi – Não queira conhecer da minha vida, maneira educada de dizer “Não metas o bedelho onde não és chamado!”
Para terminar e fazer um círculo completo, voltámos para o céu mais brutal que já vi, com mais uns quantos milhares de estrelas a mais do que o “nosso”. Já o começámos a tentar retratar, mas estou sem grandes expectativas. Ainda bem, já que é por estes momentos irrepetíveis que saio do meu país de vez em quando.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Moçambique #2

Maputo, Moçambique
18-04-2012

Só de manhã me falaram do que são os sons da noite africana. E em Maputo são muito softs, os verdadeiros são na selva, os que nos esperam. O desta noite era um som mecânico, bem audível e agudo que vim a saber ser dum pássaro. Não sei que pássaros têm eles aqui, mas o pobre deve andar sempre num estado de transe para se conseguir ouvir durante tanto tempo.
Estava curiosa em saber como seria a comida aqui, é esse o meu pecado maior, a gula! O mata-bicho – vulgo pequeno-almoço – foi bastante tradicional, com torradas e café com leite mas com marcas que os nossos colegas dizem ser da infância deles, como o chocolate em pó Milo. Não tão tradicional foi o prato que o Frei Vítor nos ofereceu a provar – abacate esmagado com casca e sumo de laranja. Provei e por aí fiquei. O almoço inclui galinha, legumes cozidos e uma feijoada de feijão branco super saborosa, para além de fruta como a papaia e banana. E até há vinho e cerveja! Está salva a pátria.
De manhã, demos umas voltas de carro com o Frei Evódeo, o responsável da casa onde estamos, para ter uma ideia geral de Maputo. As ruas são todas muito planas, com um travo a Nova Deli, devido às influências inglesas, separadas por um passeio a meio, e fiquei surpreendida por ver que os riquexós são iguais. Não esperava encontrar o banco Millenium, os cafés Delta e a Galp, nem nomes tão bonitos como Tomás e Henrique. Nem isso nem lojas de indianos a vender vinho alentejano ou tanto nome de rua “revolucionário” como Karl Marx, Mao Tse Tung ou mesmo Kim Il Sung.
Visitámos a antiga casa dos pais do nosso companheiro de viagem Carlos, que depois da independência, a 25 de Junho de 75, a deixou aos seus empregados que a transformaram numa serralharia. Fomos também à Igreja principal de Maputo; a duas casas lindas e muito cinematográficas mesmo ao lado, uma delas construídas pelo Eiffel (em metal…); a marginal, que muito faz lembrar a do Rio de Janeiro, com o Índico no seu melhor e casas paradisíacas à frente plantadas; e, em aspectos mais mundanos, comprámos um cartão SIM que baixa consideravelmente os custos de comunicação com a terra-Mãe e os que lá ficaram.
A primeira grande surpresa viria mais tarde, quando guiámos mais de uma hora para ir visitar quatro irmãs Clarissas, de Santa Clara de Assis, com os quais os Franciscanos têm uma relação especial. O caminho para lá foi o primeiro verdadeiro contacto com esta realidade, com gente a vender desde mangas a partes de bicicletas à beira da estrada, plantações de mandioca e milho, uma mata verde gloriosa (achava que era tudo tão mais seco!) que depois se transforma em montanha com vales de perder de vista. Mas voltando às irmãs, estas vivem lá apenas há um ano, na cidade de Namaacha, três espanholas e uma moçambicana. Estivemos com elas um bom bocado, em que pudemos contar o porquê da nossa vinda e futura estadia em Inhambane mas, principalmente, pôr-lhe todas as questões que quiséssemos.
Descreveram-nos o seu dia-a-dia, a começar às 5:30 com três horas de orações e leituras até ao pequeno-almoço. Falaram-nos da sua caminhada até se encontrarem naquele local, que consideram ser a sua vocação, e que parte também do ser missionário. E qual é a diferença entre estarem aqui, longe de tudo e todos ou em Espanha, se estão em clausura de qualquer maneira? Responderam que era necessário que este povo sentisse que também estava incluído nas suas orações e que podem recorrer a elas sempre que precisarem. 
Além de rezarem e fazerem adorações, também fazem trabalhos manuais que vendem e, por vezes, oferecem umas às outras nos dias de aniversário. Foi curioso ficar a saber pequenos pormenores das suas vidas. Têm que cortar o cabelo quando entram para o mosteiro; uma vez entrando num, devem morrer lá; usam uma portinhola para comunicar com o exterior; e apenas nos recreios podem conversar umas com as outras. O que mais me tocou foi o sorriso largo e o carinho com que nos receberam pois sentem que estarem connosco é também uma forma de estarem com Deus e é para isso que vivem. É preciso sentir mesmo um chamamento para viver uma vida que a maioria de nós acharia impensável mas que elas sentem, e conseguem transmitir, não poderia ser mais completa. Isto não deixa de me intrigar e fascinar ao mesmo tempo. Elas são como que o pulmão da Igreja, diziam – alguém tem que manter a oração e a comunicação com Deus vivas.
 No outro extremo, e sinto que isso é grande parte desta cidade, existem sítios como o Hotel Polana que nos transportam para o que em tempos terá sido palco de festas impensáveis e grandes extravagâncias. É dos hotéis mais bonitos que já visitei, consegue manter um estilo clássico e sóbrio, mas ao mesmo tempo imponente. Aí estivemos a beber um copo acompanhado com cajus torrados e não deixo de me sentir culpada por saber que faço parte do 1% que ignorantemente consideramos serem a maioria. Que é difícil imaginar por aquilo que a família do rapaz que nos serve já passou. E mais difícil ainda é saber as tentativas fracassadas que já houve para isso mudar e se alguma vez terão sucesso.

Moçambique #1

Maputo, Moçambique
17-4-2012

Estou em África. Nunca me imaginei poder dizê-lo aos 22 anos. 22 anos, 2 meses e 2 dias.
Estou em África, depois de ter vindo da Índia, outro sítio que é a viagem de uma vida. Ele há gente com muita sorte, não há?
Viemos em linha recta pelo continente africano desde Lisboa, em dez horas, apesar da diferença horária ser só de uma. Isto traz-me um grande alívio pois apercebi-me, há pouco tempo, que o jet lag e os seus efeitos maliciosos me adoram – mais especificamente as insónias – e o meu corpo e cabeça simplesmente não funcionam quando precisam de descansar.
Saídas do avião, nada me parece completamente estrangeiro. Olho em volta e vejo frases publicitárias como “Eu sou daqui” e pessoas que falam a minha língua. A nossa língua, que para mim, e não sou a única, é a minha pátria. Talvez por isso tenha um instinto que me vou sentir bem por aqui. Por outro lado, a humidade faz-se logo sentir por baixo das roupas demasiado quentes, apenas apropriadas para donde viemos, e que ainda mantemos, pois a ameaça de mosquitos paira nos nossos cérebros com tantos avisos vindos de casa; o tom de pele maioritário não é o meu; e há um cheiro adocicado e queimado a que provavelmente já me habituei passadas algumas horas, estando prestes a ir dormir. Estes são os sinais de chegada que não estou em casa e por essa mesma razão tudo vai passar muito rápido. É sempre assim. E tudo o que era novidade se torna “normal” (que palavra obscena!), o que era estranho se entranha (segunda referência pessoana, eu sei, vou tentar controlar-me) e daqui a nada esqueço-me que este sítio é único e estes momentos preciosos.
À saída do aeroporto, somos recebidos por um Frei Franciscano, muito novo, com os seus 30 anos, com um sorriso muito bonito e um riso contagiante que nos leva até à casa onde vamos dormir nas primeiras duas noites. Fico muito feliz por ver famílias reunirem-se, todos com cores tão diferentes. Para mim, é isto a civilidade e o que torna um país desenvolvido, mais do que estradas planas ou edifícios grandiosos. Dois cenários, esses, que não encontramos no caminho – as casas inclinam-se para o que em Portugal seria considerado uma barraca, com o que também vi na Índia de pinturas com cores muito vibrantes, na maioria a anunciar uma rede telefónica, uma bebida ou mesmo um detergente. A condução é à inglesa e a cidade pára às 22:30 já que o dia cá começa também muito cedo.
A casa Franciscana faz-me lembrar o colégio onde andei durante 5 anos e o cheiro também condiz. As mensagens de “Paz e Bem” imperam, com fotografias do Papa João Paulo II, que cá esteve. Oferecem-nos uma ceia onde a galinha é rainha, com arroz, batata, cenouras cozidas e mandioca. Provo esta última com um bocadinho de azeite – sabe a uma mistura de batata-doce sem a doçura, castanha sem ser tão intensa mas muito saborosa. Já me disseram que é esta raiz que há em abundância e que vai passar a ser nossa companheira. Óptimo!
Neste momento, escrevo no quarto onde estou sozinha, vizinha da Sofia e da Joana que ficaram juntas e, mais uma vez, sinto-me bem. Gosto muito deste ambiente de simplicidade compensada com ternura e quero viver a minha “experiência missionária”, como fala o Frei Vitor, e não estar aqui de maneira diferente dos que cá vivem. Sinto-me acompanhada por pessoas de bem, segura e em paz. Que mais se pode querer?