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domingo, 24 de junho de 2012

Moçambique #51


06-06-2012

Fomos, mais uma vez, pedir a pen da net ao Director Fadugo - o homem com ar mais assustador à face da Terra - mas vale a pena, para poder enviar uns e-mails, dar notícias e, especialmente hoje, que precisei de fazer um teste online para o processo de recrutamento da Philip Morris. Não estava com o cérebro propriamente descansado, mas teve que ser.

E falando em pedir, não posso deixar de anotar a expressão aqui usada para tudo, o "Estou a pedir". À mesa, "estou a pedir a água"; com a máquina fotográfica, "peço para ver"; para combinar um sítio, "estou a pedir para ser na escola"... Também acho muita graça a usarem só "ainda", em vez de "ainda não". "O almoço já está? - Ainda."

A aula de espanhol, à falta de electricidade foi alumiada pela lua cheia e muito mais divertida. A frase preferida é "A mi me gusta mi cariño/mi novia" e cantámos a música do Pablo Albóran e da Carminho, o "Perdoname" que é sempre uma boa maneira de treinar a pronúncia.

A noite foi de convívio, a trocar mensagens de despedida, a "trançar" e a criar contas de e-mail e Facebook para a malta. 

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Moçambique #50


05-06-2012

Aula de informática? Não tínhamos chaves. Aula de matemática? Não havia luz. Ir ter aulas na carpintaria? Estavam eles em avaliação. Há sempre outros programas, é o que vale. Em vez disto, estivemos a jogar basket, a conversar com os miúdos e a assistir à chegada da nova aquisição da escola - uma iguana/crocodilo que um dos professores tinha apanhado no rio e trouxeram-no para ser estudado.

Voltámos a cumprir a nossa função de bibliotecárias, desta vez também "conselheiras profissionais". Vinham falar connosco e nós perguntávamos o que é que eles gostam, o que é que se imaginavam a fazer no futuro, onde, como é que lá podiam chegar... Nós falávamos da nossa vida, o que é que tínhamos feito até agora e de oportunidades que pudessem ser adequadas para eles. Foi mais uma conversa de amigos e a maior parte quer casar, ter filhos, a sua machamba e, eventualmente, criar um negócio de agro-pecuária. O Arlindo dizia que queria ir para Portugal.

Eles estavam mortos por tirar fotografias, na machamba que eles fizeram aqui na missão e connosco. Fizemos uma shoot no meio das alfaces, das cebolas e das couves, das quais eles estão muito orgulhosos e estão, realmente, preciosas. As fotografias, nem se fala.

Entrei na casa dos formadores para combinar a noite de cinema e fiquei impressionada. É uma divisão húmida, com muito pouca luz e que serve de escritório - com uma mesa com computador, televisão e outros aparelhos - de quarto, cozinha e sabe-se lá que mais. Um dos alunos, o Sacramento, e filho do formador Manuel, já me tinha dito que os professores ganhavam muito mal e que havia muito poucas vagas, mesmo assim, para os existentes. Isto porque o número de escolas só abrange um número ridículo de alunos comparado com o de crianças e jovens neste país. Que muitos também chegavam à 7ª classe sem saber ler nem escrever, não era estranho.

E a vida na escola também não é pêra doce, pelo menos nesta. Organizámos a noite de cinema, no salão paroquial com uma televisão emprestada e os Piratas das Caraíbas 4 pirateado (!) mas os miúdos pouco duraram até depois das 21:00. Já sabíamos que a Lina se levantava às 4:00 todos os dias menos ao Domingo, mas para pôr as coisas do pequeno-almoço na mesa, tomar banho e engomar o uniforme (mesmo assim, não há necessidade). Mas que todos eles têm que se levantar a essa hora... Só consegui olhar para eles com a maior admiração e perguntar-me o que seria de mim se me obrigassem a levantar para limpar a escola e tarefas do género. Ao meio-dia já eles têm um dia normal de trabalho no corpo! Será que há assim tanto com que os encarregar, 200 alunos, todos os dias? Misericórdia...

Por último, estava a Joana de cama com febre a subir muito rapidamente, e nós a achar que era duma distensão que ela se queixava na perna. Estava a ficar muito preocupada, porque de certeza que não era disso mas também não sabia de quê e não descia a febre mesmo com Brufen. Só depois ela se lembrou que tinha encontrado, há uns dias, uma carraça na perna que tinha deixado marca e lá a minha mãezinha disse para tomar uma bomba antibiótica, que fez baixar a temperatura do corpo quase imediatamente e normalizá-la passadas umas horas. Não me venham dizer que a minha maleta farmacêutica é mariquice e que se deve tratar tudo naturalmente, não.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Moçambique #49


04-06-2012

"Eu estou bem", é como muitos por cá respondem a um "Boa tarde" ou "Bom dia". E, neste caso, aplica-se, eu estou bem.

Para além das aulas, estamos também cá para o convívio e hoje tive uma dose intensiva de conversa de um dos alunos, o Francisco, que tem o dom de conseguir falar durante o tempo que for necessário, encadeando tema atrás de tema duma maneira impressionante e nos deixa de boca aberta mas sem sair uma única palavra.

Ele é um miúdo extraordinário, com uma vontade de fazer incrível e com os mais variados interesses, desde a apicultura ao kung fu. Ficou órfão recentemente mas não se acanha nada em falar disso e tem um espírito muito despachado. Só depois relembrando toda a conversa é que descobri as saídas fabulosas que ele tinha tido, são tantas que não dá para acompanhar e mantenho sempre um ar seriíssimo. "Porque eu pressenti a morte do meu pai quando estava no meu quarto, em Maputo - lá eu estudo com os cadernos em cima da cama, mas também temos sofás - e tenho uma ventoinha - a ventoinha tem vários botões - mas depois desliguei a ventoinha mas ela continuou a dar e era ela que me virava as páginas e, nesse momento, tive uma imagem do meu pai a morrer. Foram à escola e disseram à minha prima mas não disseram a mim e ela estava a falar com a minha tia e disse que o meu pai tinha morrido mas achou que eu não tinha ouvido por causa do meu problema de audição mas eu também fingi que não tinha ouvido. Depois disseram que me estavam a chamar em casa e eu vi lá muita gente reunida e, como ainda era muito infantil, pensei - Será que é um casamento? Porque quando os meus pais se casaram também havia muitas pessoas. Mas depois fui chorar para o meu quarto só que os meus primos apareceram e como eu nessa altura era muito infantil e achava que os homens não choravam, limpei as lágrimas para eles não verem mas não por muito tempo, depois continuei a chorar. Mas depois a família do meu pai queria bater na minha mãe porque dizia que ela é que tinha enviado espíritos para o meu pai para o matar e ficaram todos zangados sem se falar". Falou também da Igreja Universal, de como o Fernando Picane é obreiro e ele próprio só tem poderes por causa da fé dele. Quando a Gina Cabral estava com espíritos, chamaram os dois e o Júlio e o Picane trouxe azeite e água que pôs na Gina e não resultou, então passou a energia para ele e a Gina começou a correr feita louca. Ninguém a conseguia agarrar e, só quando ele passou o poder para o Júlio, é que a conseguiram parar. Outro, de como o trouxeram aqui para a escola, porque ele pensava que vinha para um estúdio de música mas depois passados dois dias viu "Naa, isto não é um estúdio de música!". Ao início não gostou mas depois começou-se a interessar pelos animais e a fazer amigos mas a missão dele é ajudar as pessoas de Nhampopo que são analfabetas. Este rapaz não existe, devia ser filmado.

À noite, com uma lua cheia poderosa, a Sofia deu finalmente a aula de Origami e eu fiquei maravilhada por, com os alunos, aprender a fazer uma caixa! Eles adoraram, mais ainda fazer rosas, corações e sapos enquanto ouvíamos a música que faz furor agora, a "Puxa Mazambane", hit este que quer dizer, "Puxa a batata" e é sobre trabalhar na machamba com um ritmo como eu nunca ouvi, que é impossível não dançar e não nos desmancharmos a rir. Já se tornou o meu toque de telemóvel.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Moçambique #48


03-06-2012

Dia de pseudo-ressaca. O meu corpo quis acordar às 7:00, já está bem treinado, mesmo só com 3 horas de sono, mas obriguei-o a preguiçar até às 11:30. Quando a Lina me disse que acordou às 6:00 para ir à missa sofri muito por ela. Que martírio.

As pernas doem de dançar a passada mas o espírito está alegre e leve.

A professora de Educação Física/Biologia tem estado doente com malária e não pôde vir ao torneio mas, nem isso, nem a chuva, impediram que ele se realizasse. Com os atrasos do costume, jogaram as três equipas entre si. Uma delas, que jogou duas partidas, soube logo que era vencedora antes das outras jogarem o terceiro jogo mas quiseram, mesmo assim, lutar para não ficar em último, para não serem “cuanhamas”, como eles dizem.

Arbitrámos os jogos e entregámos os prémios, uma pulseira de plástico de equipas de futebol, tipo Arsenal e Real Madrid, e uma caneta. Caneta essa que o Fernando amou porque "não é preciso fazer força!", é só rodar a parte de cima para o lado direito e não carregar no topo. Extraordinária!

Mas toda a senhora ressaca pede gordura e, nos trópicos, isso não se altera. Felizmente, foi falso alarme a explosão do fogão e forno por isso aventurámo-nos a fazer um bolo de chocolate. Feito a olho, sem fermento, com uma barra de chocolate dos chineses e uma forma que vazou, o resultado... podia ter sido melhor. Cru, sensaborão e muito denso, deu para amainar a gula que uma salada de frutas, por sua vez deliciosa, não conseguiu afugentar.

Ao lanche, avistei uma garrafa de piri-piri, que andava com curiosidade em provar e que caiu muito bem com pão com manteiga e sal. Era delicioso, não só picante, tem imenso sabor! Mais um kit para levar comigo. Já combinámos que, à volta, vamos fazer uma festa de comida, à gordas assumidas, com tudo o que é bom: pizza, gelado, comida do Nood, bolinhas caseiros... e imediatamente a seguir ir parar ao hospital com uma apendicite e/ou congestão.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Moçambique #47


02-06-2012 

Preparar a rave moçambicana durante o dia, "brincar" à noite!

Fomos comprar os refrescos para os alunos e Laurentinas para os formadores que, inevitavelmente, acabaram também na mão dos primeiros. Dissemos que era só para os maiores de idade e não me parece ter havido algum problema. Claro que as bebidas não foram suficientes para o que viriam a ser 8 horas de festa. Duraram umas 3, se tanto!

Foi até não aguentar mais das pernas, entre lambadas, passadas, marabenta e música internacional, muito dançámos! As miúdas deliravam a dançar com um dos formadores, que eu acho assustador, e todos gostam dos "esquemas", em que fazem todos o mesmo passo, pelo meio. Foi dançar por prazer, para enxotar a tristeza e aperfeiçoar uma arte. Eles são peritos e amorosos em ensinar-nos. O melhor são mesmo os de metro e meio, a dançar com as de um e sessenta e cinco ou, em último caso, agarrados a uma cadeira!

A sala tinha sido decorada com papéis em branco para eles nos deixarem dedicatórias e mensagens de despedida. Trouxemos e guardámos, cada frase é melhor que a outra. "Amo a vida, amo as três garotinhas Sofia, Joana e Carolina idem em paz que o são Francisco de Assis vos acompanhe sucessos para vossa todo vida." e " LEMPRESE DE NOS ONDE ESTIVEREN QUI TANBE VAMOS SE LENBRAR DE VÓS".

Outros acharam por bem que estas fossem privadas e enviaram através de mensagem para o telemóvel. E liam o seguinte: "Decatoria Ja parou para pensar o canto è lindo e orivel uma dspedida a melhores amigas so uma lenbresa ardendo rezumindo as paginas d vida em cada lagrimas deramada d um lindo adeus." e "eu so uma moxa mto social nao xtress cm ninguem apenas sou invegada, mais eu gostei mto de voces, axim k vao embora pdem crer k kuand eu pder irei lgar vos, amo vos. Sofia, carolina e joana"

Precioso.