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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Moçambique #53

08-06-2012

De volta à nossa casa mãe, Jangamo. Parece já ter sido há tanto tempo que daqui saímos…

Fomos matar saudades das nossas queridas irmãs e dos nossos meninos. Ficaram muito contentes, apreensivos ao princípio, e os miminhos foram mais que muitos e de encher o coração. Foi tão bom receber os abracinhos, festinhas e sorrisos carinhosos deles! Se me deixassem, levava uns quantos no bolso. Foi um momento muito especial.

Almoçámos com as Irmãs Teresa, Arminda e Lucília que nos mimaram, mais uma vez, e tirei a barriga de misérias com o concentrado de maracujá e biscoitos caseiros. A Irmã Teresa vai já esta semana para Portugal para regressar só em Setembro e, assim sendo, está prometido um encontro para breve. Quanto às restantes... "só as montanhas é que nunca se encontram", como disse a Irmã Lucília. E tem toda a razão. Quem diria que alguma vez ia pôr os pés em sítios, tão longínquos e afastados da minha realidade, como Cumbana e Namaacha, Bongo e Inhampupo?! Os trilhos desta vida não são possíveis de mapear e sempre com mais para oferecer do que aquilo com que conseguimos sonhar...

Antes da última paragem na Maxixe para preparar a viagem ao centro durante esta última semana, conseguimos encontrar o tão desejado piri-piri da Dona Rachida (!), uma produtora local que distribui pelas barraquinhas à beira da estrada. Comprámos o normal - de limão - e um de manga, a 70 meticais cada. Na Maxixe, levantamos dinheiro, a Joana compra uma mochila (já que se entusiasmou e ofereceu a sua no sorteio) e ainda mantimentos, nos chineses (que devem esfregar as mãos de contentes cada vez que lá entramos.

De regresso a casa, dei uma volta até à mangueira para fazer umas fotografias que, pecado capital, ainda não me tinha aventurado pelas redondezas. E apenas por preguiça e falta de coragem porque já sabia que o resultado ia ser bom.

Para terminar o dia em beleza, uma noite de mini-recreação, com frango de churrasco e batata-frita, olhar este céu estúpido e, com as minhas queridas companheiras, recriar cenas já vividas e ver fotografias e vídeos da nossa "aventura no desconhecido".

Como respondeu a Joana, ao que será de nós as duas separadas, "Não somos".

domingo, 24 de junho de 2012

Moçambique #52


07-06-2012
Jangamo, Inhambane, Moçambique

Outro dia de despedida, outro dia frenético.

"Nada é fácil" é uma verdade já confirmada em Moçambique. As pessoas "hão-de ir", "hão-de vir", "havemos de fazer" e o que for, "há-de ser". Nunca com sentido de urgência ou com prazos previamente estabelecidos.

Hoje foi a saga da impressão dos cadernos de apontamentos que queríamos deixar aos alunos com todas as disciplinas e aulas que demos, desde o espanhol ao seminário da Internet. Conseguimos resumir tudo em 24 páginas mas precisávamos de imprimir uma vez para pôr a fotocopiar na escola secundária. Os computadores têm vírus que destroem os ficheiros, a impressora não quer funcionar, as pens não são reconhecidas, a electricidade vai abaixo, não temos o software da impressora... Tudo o que pode acontecer, acontece, e a salvação é um dos alunos ir à vila de bicicleta buscar um cd para usar no computador da Irmã Laurinda com o ficheiro. Desde as 6:30 às 9:30. De seguida, pôr a fotocopiar. O homem assegurou-nos que tinha folhas suficientes, "não tem problema", mas deve ter feito mal as contas, ou não as fez, e achou que uma resma chegava para 2500 cópias... Claro que ao fim dos primeiros dez cadernos ficou quatro horas à espera que o amigo fosse comprar mais. Nisto é hora de nos irmos embora e ainda tinha que faltar o toner. É nestes momentos em que baixamos os braços e nos entregamos à vontade dos elementos. Distribuímos os cadernos que ficaram prontos, o dinheiro para que a Lina pagasse quando estivesse o trabalho concluído e tudo há-de ficar resolvido.

Fomos almoçar ao refeitório com os alunos internos, o que já devíamos ter feito há mais tempo. As condições são as mais básicas, com talheres e copos de plástico insuficientes para servir a todos e, dizem eles, a ementa não variar muito entre xima e feijão e arroz e feijão. Hoje foi arroz com caril de amendoim de peixe, não sei se por ser dia de festa. Organizámos um sorteio das nossas coisas que podíamos deixar, entre roupa, lápis, um guarda-chuva, mochilas e mesmo umas colunas. Ficaram loucos, a cara de felicidade deles foi impagável. O Pupai, um dos alunos que não precisa de fazer nada para que eu queira estar a todo o momento a olhar para ele sabendo que me vou rir, recebeu um guarda-chuva, que achou apropriado levar aberto para a aula seguinte.

Na despedida, escreveram-nos mensagens amorosas, dedicatórias e até lembranças para levarmos. As frases são sempre muito poéticas: "Vós amo como se fossen o meu curação direito. Não me esquenci do voço cabelo", "Vocês foram uma segunda mãe para nós no mundo das ciências" e a história do Bresneves sobre um pequeno-almoço com "pri-pir" entre mim e ele. Disseram que nós os íamos abandonar, que agora iam emagrecer e deixar de conseguir dormir, que temos que voltar... Estes miúdos não existem e até houve choradeira sentida mesmo nos últimos momentos. Hoje estou simplesmente exausta e não consegui ainda absorver tudo e perceber como me sinto, mas de certeza que levo muitos momentos comigo de cada um deles.

No caminho para Jangamo, soubémos que o Frei Filipe ainda estava em Maputo e achámos que assim mais valia voltar para Maxixe e deixar tudo tratado com as fotocópias. Mas o Frei Viegas achou que estava toda a gente a brincar com ele e que nós tínhamos era que ir para Jangamo. Ainda parámos nos chineses para comprar um telemóvel à Lina - que já tem quase 16 anos, afastada dos pais e não consegue falar com ninguém - e a Sofia ofereceu o dela ao Júlio. O Frei também não deve ter achado graça nenhuma e nem sequer se chegou a despedir de nós com mais do que um "Tchau" virando costas... Não é alguém que vamos levar no coração, com certeza, mas também não é nada que não me impeça de dormir.

A Lena telefonou e foi tão bom ouvir a voz dela, já sinto falta dos amigos e família, é sinal que também gosto muito do que me espera em Portugal.

sábado, 28 de abril de 2012

Moçambique #5

21-04-2012
Último dia dos nossos companheiros de viagem connosco. O Carlos, o Sérgio e o Frei Vítor vão continuar para outras missões até dia 1, quando voltam para Portugal.
Fomos visitar as Missionárias de Maria em Guíua e o cemitério onde estão enterrados vários formandos das missões, que há alguns anos foram mortos por rebeldes moçambicanos que eram a Igreja Católica. O Frei fez questão que lá passássemos a ver as campas com os nomes todos mas não é o melhor sítio para levar três miúdas que vão ficar em casa de frades por cá…
Conhecemos uma menina amorosa, a Rute, que nos mostrou o caminho até lá e tinha uns chinelos com a bandeira de Portugal.
Tirámos a tarde para lazer completo e fomos para uma zona ao pé do mar, que está cheia de lodges construídos por sul-africanos no sítio mais paradisíaco que se possa imaginar. Almoçámos na zona do Tofo, que no Verão está apinhada de turistas, mas que agora estava praticamente vazia mesmo estando um tempo óptimo para tomar banho, com água a uns 25 graus. Nota: vir cá passar férias no “Inverno” moçambicano. Ainda houve tempo depois para estar num bar de praia e do Frei Filipe, o nosso condutor do dia, tomar um whisky duplo.
Acabámos a visitar o Frei Salvador na paróquia de Inhambane. Fez-nos uma visita guiada, ofereceu um Ricofizinho e umas ervas secas, a moringa, que ele jura fazerem bem a tudo e indicou que o Frei Filipe tomasse aquilo todos os dias. Ainda gostava de levar a moringa para um laboratório e ver realmente o que é aquilo! Mais uma vez, que simpatia e acolhimento por parte de toda a gente. Sinto-me verdadeiramente confortável logo que conheço a maioria desta comunidade, que achava ser muito mais tímida e reservada mas carinho é aquilo que encontro sempre. Carinho com imensa consideração por nós, quando não merecemos nada disto, utilizando sempre um “obrigado” quando nós dizemos “boa tarde”.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Moçambique #4

20-04-2012
Um dos temas de conversa permanentes é a malária. Doença que não tratada se torna fatal, é facilmente confundida com uma gripe mas é transmitida através de um certo tipo de mosquito. Quem vem para África é avisado constantemente como prevenir, já que muita gente morre dela, mas é porque as pessoas simplesmente não têm os comprimidos para tomar pois se os tivessem, em dois três dias ficam curadas… Nós, para não apanharmos, andamos com pulseiras, sprays, tomamos comprimidos e mesmo assim quando vemos um mosquito fugimos como o diabo da cruz! Já ouvimos histórias de um que esteve cá quatro anos e só quando voltou para Itália é que apanhou; vários miúdos que não têm medicação e acabam por morrer; o Frei Vítor que cá esteve 7 anos e nunca teve; outra que é simplesmente imune; mas a minha preferida, nas palavras do Frei Filipe, foi “uma freira velhinha que pulverizou o quarto com Baigon antes de ir dormir e, de manhã, acordou no céu!”.
A malária é paralela à situação da diferença humana que sinto estando cá: ninguém sabe quem vai ser afetado, neste caso, por nascer numa condição melhor ou pior. Nós não temos mérito nenhum em ser mais ou menos desenvolvidos, em viver em casas mais confortáveis ou ter estudado durante mais anos. Muitas vezes, dou por mim a pensar que tenho que vir ensinar, educar, criar bases para a sustentabilidade mas, de verdade, que percentagem disto me é imputável? Tenho consciência que escolho pouco daquilo que sou, quer seja por onde nasci, por quem conheci ou por que oportunidades tive mas tenho a liberdade de o aceitar ou querer diferente. Por vezes, a simplicidade é o caminho mais difícil e é o que tenho retirado do convívio aqui em Inhambane.
Hoje estivemos em sítios estonteantes, como a Baía de Inhambane que, com a companhia de uma casquinha (camarão com açafrão, pão, ovo e outras especiarias) e uma preta (cerveja) não podem deixar ninguém indiferente e passámos depois para o outro lado, por 10 meticais, com as pessoas que fazem este percurso todos os dias e, obviamente, já achamos curioso é ver um branco por estes lados e, oh, também muito brincam os moçambicanos negros connosco quando nos vêem!
Estivemos também na escola onde vamos começar por dar apoio, aqui em Jangamo, liderada pela Irmã Teresa. A escolinha é a coisinha mais querida, vê-se que está muito estimada, tendo sempre em conta quanto se recebe e gasta, nada é desperdiçado. A Irmã é das pessoas mais despachadas que já conheci na minha vida, fez-nos o tour completo a explicar cada pormenor. Vamos estar com 80 meninos e meninas, entre os três e os cinco anos, que entram às sete da manhã e saiem pouco depois do meio-dia, com um lanchinho pelo meio. A irmã mostrou-nos as salinhas, o recreio, as árvores que têm e disse que cada família deve pagar à volta de 150 meticais por mês de maneira a criar um modelo sustentável e, quando ela já lá não estiver, ninguém seja mal habituado a que depois todos os serviços escolares funcionem de borla, porque assim ninguém volta a pegar no ensino por aqui. Acho que nos vamos dar muito bem, estou ansiosa que comece a escola!
Demos também um salto a Homoíne, onde vamos estar depois, já com jovens, liderados pelo Frei Viegas. Fiquei impressionada com o tamanho da missão e de todos os serviços que disponibiliza, entre oficinas, enfermaria, lar, catequese, escola… É impressionante ouvir os relatos do que havia aqui no passado e que se vê, pelo tamanho e número de casas existentes e que agora estão vazias. É uma pena que não se tenha continuado com a mesma força algo de valor como esta missão, pelas mais determinadas razões que mais tarde vou querer aprofundar. De qualquer maneira, foi um deleite conhecer as “velhinhas”, como lhes chamam, que vivem juntas com algumas crianças e encontrámos a preparar o almoço. Os “velhinhos” estão noutro sítio já que, nas palavras do Frei Viegas, “sabe-se lá o que aconteceria se se juntassem os dois!” Eu não estou a ver grande alvoroço a vir daí, mas ele lá sabe!
E como não podia deixar de ser, as novidades culturais são sempre muitas e hoje foi provar cana-de-açúcar e sumo de concentrado de maracujá, tudo natural e delicioso; ver videoclips de dança do Zimbabué e o reggae do Lucky Dube, de quem todos os Irmãos parecem ser fãs!
Utilizando a melhor expressão que tenho ouvido até hoje de despedida e a mais comum aqui,
Estamos juntos!

Moçambique #3

Jangamo, Inhambane, Moçambique
19-04-2012

Já quase me conformei com o facto de que paisagens estonteantes são muito difíceis de reproduzir. Acredito que uma fotografia deve contar, por si só, uma história, mas um lugar mágico tem mais que muitas para contar, não só uma, e daí a dificuldade em retratá-lo. Os mais dotados talvez a consigam transformar em palavras, mas eu resigno-me com a minha falta de competência nesta matéria. Não se pode reduzir apenas a uma dimensão um aperto de mão caloroso nem uma baía de perder de vista. Certos lugares hoje foram assim, felizmente.
Saímos de Maputo às 5:30 e às 8:30 mata-bichámos com outras irmãs Clarissas pelo caminho. Desta vez já estávamos mais a par do que fazem e por isso tivemos conversas mais descontraídas e foi como se tivéssemos vindo visitar amigas de há muito. É, mais uma vez, com a maior simpatia que nos recebem e ficam felizes ao saberem que iremos ficar dois meses em Inhambane, terra natal de uma delas. Ainda não têm mosteiro para estarem em clausura pois só chegaram aqui faz um ano. Assim, mostraram-nos o terreno onde já têm flores de todas as cores, erva-príncipe, mandioca, cajueiros e laranjeiras tal como dois canitos e um casal de porcos que, aquando do nascimento de uma cria, voltam aos donos originais para que as irmãs fiquem com o pequeno. A igreja era muito kitch, com as paredes pintadas de cor-de-rosa e verde-água, vitrais com cores primárias e um chão muito retro, com azulejo a preto e branco em diagonais. Vê-se que precisa de ser restaurada mas é muito especial e recebe alguns turistas.
Antes de nos despedirmos, ainda fomos requisitados para ajudar uma das irmãs, portuguesa, a tratar de arranjar a impressora. Todo o cenário era digno dum filme do Woody Allen – com coqueiros lá fora, a irmã com sotaque bracarense cerrado, óculos desproporcionalmente grandes para o tamanho da cara e hábito castanho e branco, a explicar-nos como já-tinha-instalado-a-impressora-toda-XPTO-Laserjet-mas-que-o-processo-de-instalação-não-tinha-acabado-porque-a-Internet-tinha-ido-abaixo-mas-agora-já-estava-a-funcionar-e-o-tone- e-novo-mas-o-Windows- tinha-ar-de-ser-o-primeiro-lançado-pela-Microsoft, isto enquanto estava sentada com o ecrã do computador inclinado para cima dela e a mexer no terço, que trazem sempre pendurado na corda, que podia ser que o Santíssimo também ajudasse nestas ocasiões.
Estrada fora, entrávamos agora num tipo de paisagem ligeiramente diferente, com mais coqueiros, terra muito argilosa e menos casas de cimento, mais de esteira, mas sempre com planície muito vasta. Quase a chegar a Inhambane, parámos na baía mais maravilhosa que alguma vez vi, de um azul e verde tão intensos… Provei água de coco e lenho, o coco quando é fresco e comprei o novo vício, caju torrado. Num contacto mais próximo com os vendedores e a malta que se reunia à nossa volta, deu para perceber que eles parecem um pouco tímidos ao início mas que têm o sorriso mais bonito quando este aparece.
Ao chegar à nossa casa, fomos recebidos pelo Frei Filipe Quenquene, que vai estar connosco nas próximas três semanas e por três rapazes que também cá vão estar e são aspirantes a frades, os postulantes. Houve gazela, arroz com um folha que ainda hei-de descobrir o que é, e uma iguaria típica – matapa. Consiste em folhas de mandioca e amendoim triturados com leite de coco. É absolutamente delicioso como molho a acompanhar o que quer que seja e não saio daqui sem estar expert em cozinhá-lo. E comê-lo, claro.
Tivemos ainda tempo de ir ao mercado e conhecer um bocadinho da cidade de Inhambane, que fica a cerca de 25 minutos de carro por uma estrada fascinante. Aí, vêm- se as povoações construídas em palhotas de uma espécie de areia cimentada, muito planas, no meio dos coqueiros e era como eu imaginaria África logo quando ouço a palavra. Há também homens, mulheres e crianças a tentar vender camarão ao estendê-lo em frente aos carros que por lá passam e muitos chapas a passar apinhados – mini-vans de 15 lugares onde vão umas 25 pessoas e que é o meio de transporte mais comum.
O mercado era muito rico, colorido e animado, com piri-piri, coco, tomates, abacaxis, artesanato, tabaco e tudo o que se possa precisar. Cheira-me que ainda vou passar aqui umas belas horas a deambular e deixar cá uns quantos meticais.
Temo-nos divertido com os nomes dos boteques, tais como – Contra Stress – e de mensagens que põe à porta de casa, em que a melhor até agora foi – Não queira conhecer da minha vida, maneira educada de dizer “Não metas o bedelho onde não és chamado!”
Para terminar e fazer um círculo completo, voltámos para o céu mais brutal que já vi, com mais uns quantos milhares de estrelas a mais do que o “nosso”. Já o começámos a tentar retratar, mas estou sem grandes expectativas. Ainda bem, já que é por estes momentos irrepetíveis que saio do meu país de vez em quando.