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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Moçambique #3

Jangamo, Inhambane, Moçambique
19-04-2012

Já quase me conformei com o facto de que paisagens estonteantes são muito difíceis de reproduzir. Acredito que uma fotografia deve contar, por si só, uma história, mas um lugar mágico tem mais que muitas para contar, não só uma, e daí a dificuldade em retratá-lo. Os mais dotados talvez a consigam transformar em palavras, mas eu resigno-me com a minha falta de competência nesta matéria. Não se pode reduzir apenas a uma dimensão um aperto de mão caloroso nem uma baía de perder de vista. Certos lugares hoje foram assim, felizmente.
Saímos de Maputo às 5:30 e às 8:30 mata-bichámos com outras irmãs Clarissas pelo caminho. Desta vez já estávamos mais a par do que fazem e por isso tivemos conversas mais descontraídas e foi como se tivéssemos vindo visitar amigas de há muito. É, mais uma vez, com a maior simpatia que nos recebem e ficam felizes ao saberem que iremos ficar dois meses em Inhambane, terra natal de uma delas. Ainda não têm mosteiro para estarem em clausura pois só chegaram aqui faz um ano. Assim, mostraram-nos o terreno onde já têm flores de todas as cores, erva-príncipe, mandioca, cajueiros e laranjeiras tal como dois canitos e um casal de porcos que, aquando do nascimento de uma cria, voltam aos donos originais para que as irmãs fiquem com o pequeno. A igreja era muito kitch, com as paredes pintadas de cor-de-rosa e verde-água, vitrais com cores primárias e um chão muito retro, com azulejo a preto e branco em diagonais. Vê-se que precisa de ser restaurada mas é muito especial e recebe alguns turistas.
Antes de nos despedirmos, ainda fomos requisitados para ajudar uma das irmãs, portuguesa, a tratar de arranjar a impressora. Todo o cenário era digno dum filme do Woody Allen – com coqueiros lá fora, a irmã com sotaque bracarense cerrado, óculos desproporcionalmente grandes para o tamanho da cara e hábito castanho e branco, a explicar-nos como já-tinha-instalado-a-impressora-toda-XPTO-Laserjet-mas-que-o-processo-de-instalação-não-tinha-acabado-porque-a-Internet-tinha-ido-abaixo-mas-agora-já-estava-a-funcionar-e-o-tone- e-novo-mas-o-Windows- tinha-ar-de-ser-o-primeiro-lançado-pela-Microsoft, isto enquanto estava sentada com o ecrã do computador inclinado para cima dela e a mexer no terço, que trazem sempre pendurado na corda, que podia ser que o Santíssimo também ajudasse nestas ocasiões.
Estrada fora, entrávamos agora num tipo de paisagem ligeiramente diferente, com mais coqueiros, terra muito argilosa e menos casas de cimento, mais de esteira, mas sempre com planície muito vasta. Quase a chegar a Inhambane, parámos na baía mais maravilhosa que alguma vez vi, de um azul e verde tão intensos… Provei água de coco e lenho, o coco quando é fresco e comprei o novo vício, caju torrado. Num contacto mais próximo com os vendedores e a malta que se reunia à nossa volta, deu para perceber que eles parecem um pouco tímidos ao início mas que têm o sorriso mais bonito quando este aparece.
Ao chegar à nossa casa, fomos recebidos pelo Frei Filipe Quenquene, que vai estar connosco nas próximas três semanas e por três rapazes que também cá vão estar e são aspirantes a frades, os postulantes. Houve gazela, arroz com um folha que ainda hei-de descobrir o que é, e uma iguaria típica – matapa. Consiste em folhas de mandioca e amendoim triturados com leite de coco. É absolutamente delicioso como molho a acompanhar o que quer que seja e não saio daqui sem estar expert em cozinhá-lo. E comê-lo, claro.
Tivemos ainda tempo de ir ao mercado e conhecer um bocadinho da cidade de Inhambane, que fica a cerca de 25 minutos de carro por uma estrada fascinante. Aí, vêm- se as povoações construídas em palhotas de uma espécie de areia cimentada, muito planas, no meio dos coqueiros e era como eu imaginaria África logo quando ouço a palavra. Há também homens, mulheres e crianças a tentar vender camarão ao estendê-lo em frente aos carros que por lá passam e muitos chapas a passar apinhados – mini-vans de 15 lugares onde vão umas 25 pessoas e que é o meio de transporte mais comum.
O mercado era muito rico, colorido e animado, com piri-piri, coco, tomates, abacaxis, artesanato, tabaco e tudo o que se possa precisar. Cheira-me que ainda vou passar aqui umas belas horas a deambular e deixar cá uns quantos meticais.
Temo-nos divertido com os nomes dos boteques, tais como – Contra Stress – e de mensagens que põe à porta de casa, em que a melhor até agora foi – Não queira conhecer da minha vida, maneira educada de dizer “Não metas o bedelho onde não és chamado!”
Para terminar e fazer um círculo completo, voltámos para o céu mais brutal que já vi, com mais uns quantos milhares de estrelas a mais do que o “nosso”. Já o começámos a tentar retratar, mas estou sem grandes expectativas. Ainda bem, já que é por estes momentos irrepetíveis que saio do meu país de vez em quando.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Moçambique #2

Maputo, Moçambique
18-04-2012

Só de manhã me falaram do que são os sons da noite africana. E em Maputo são muito softs, os verdadeiros são na selva, os que nos esperam. O desta noite era um som mecânico, bem audível e agudo que vim a saber ser dum pássaro. Não sei que pássaros têm eles aqui, mas o pobre deve andar sempre num estado de transe para se conseguir ouvir durante tanto tempo.
Estava curiosa em saber como seria a comida aqui, é esse o meu pecado maior, a gula! O mata-bicho – vulgo pequeno-almoço – foi bastante tradicional, com torradas e café com leite mas com marcas que os nossos colegas dizem ser da infância deles, como o chocolate em pó Milo. Não tão tradicional foi o prato que o Frei Vítor nos ofereceu a provar – abacate esmagado com casca e sumo de laranja. Provei e por aí fiquei. O almoço inclui galinha, legumes cozidos e uma feijoada de feijão branco super saborosa, para além de fruta como a papaia e banana. E até há vinho e cerveja! Está salva a pátria.
De manhã, demos umas voltas de carro com o Frei Evódeo, o responsável da casa onde estamos, para ter uma ideia geral de Maputo. As ruas são todas muito planas, com um travo a Nova Deli, devido às influências inglesas, separadas por um passeio a meio, e fiquei surpreendida por ver que os riquexós são iguais. Não esperava encontrar o banco Millenium, os cafés Delta e a Galp, nem nomes tão bonitos como Tomás e Henrique. Nem isso nem lojas de indianos a vender vinho alentejano ou tanto nome de rua “revolucionário” como Karl Marx, Mao Tse Tung ou mesmo Kim Il Sung.
Visitámos a antiga casa dos pais do nosso companheiro de viagem Carlos, que depois da independência, a 25 de Junho de 75, a deixou aos seus empregados que a transformaram numa serralharia. Fomos também à Igreja principal de Maputo; a duas casas lindas e muito cinematográficas mesmo ao lado, uma delas construídas pelo Eiffel (em metal…); a marginal, que muito faz lembrar a do Rio de Janeiro, com o Índico no seu melhor e casas paradisíacas à frente plantadas; e, em aspectos mais mundanos, comprámos um cartão SIM que baixa consideravelmente os custos de comunicação com a terra-Mãe e os que lá ficaram.
A primeira grande surpresa viria mais tarde, quando guiámos mais de uma hora para ir visitar quatro irmãs Clarissas, de Santa Clara de Assis, com os quais os Franciscanos têm uma relação especial. O caminho para lá foi o primeiro verdadeiro contacto com esta realidade, com gente a vender desde mangas a partes de bicicletas à beira da estrada, plantações de mandioca e milho, uma mata verde gloriosa (achava que era tudo tão mais seco!) que depois se transforma em montanha com vales de perder de vista. Mas voltando às irmãs, estas vivem lá apenas há um ano, na cidade de Namaacha, três espanholas e uma moçambicana. Estivemos com elas um bom bocado, em que pudemos contar o porquê da nossa vinda e futura estadia em Inhambane mas, principalmente, pôr-lhe todas as questões que quiséssemos.
Descreveram-nos o seu dia-a-dia, a começar às 5:30 com três horas de orações e leituras até ao pequeno-almoço. Falaram-nos da sua caminhada até se encontrarem naquele local, que consideram ser a sua vocação, e que parte também do ser missionário. E qual é a diferença entre estarem aqui, longe de tudo e todos ou em Espanha, se estão em clausura de qualquer maneira? Responderam que era necessário que este povo sentisse que também estava incluído nas suas orações e que podem recorrer a elas sempre que precisarem. 
Além de rezarem e fazerem adorações, também fazem trabalhos manuais que vendem e, por vezes, oferecem umas às outras nos dias de aniversário. Foi curioso ficar a saber pequenos pormenores das suas vidas. Têm que cortar o cabelo quando entram para o mosteiro; uma vez entrando num, devem morrer lá; usam uma portinhola para comunicar com o exterior; e apenas nos recreios podem conversar umas com as outras. O que mais me tocou foi o sorriso largo e o carinho com que nos receberam pois sentem que estarem connosco é também uma forma de estarem com Deus e é para isso que vivem. É preciso sentir mesmo um chamamento para viver uma vida que a maioria de nós acharia impensável mas que elas sentem, e conseguem transmitir, não poderia ser mais completa. Isto não deixa de me intrigar e fascinar ao mesmo tempo. Elas são como que o pulmão da Igreja, diziam – alguém tem que manter a oração e a comunicação com Deus vivas.
 No outro extremo, e sinto que isso é grande parte desta cidade, existem sítios como o Hotel Polana que nos transportam para o que em tempos terá sido palco de festas impensáveis e grandes extravagâncias. É dos hotéis mais bonitos que já visitei, consegue manter um estilo clássico e sóbrio, mas ao mesmo tempo imponente. Aí estivemos a beber um copo acompanhado com cajus torrados e não deixo de me sentir culpada por saber que faço parte do 1% que ignorantemente consideramos serem a maioria. Que é difícil imaginar por aquilo que a família do rapaz que nos serve já passou. E mais difícil ainda é saber as tentativas fracassadas que já houve para isso mudar e se alguma vez terão sucesso.

Moçambique #1

Maputo, Moçambique
17-4-2012

Estou em África. Nunca me imaginei poder dizê-lo aos 22 anos. 22 anos, 2 meses e 2 dias.
Estou em África, depois de ter vindo da Índia, outro sítio que é a viagem de uma vida. Ele há gente com muita sorte, não há?
Viemos em linha recta pelo continente africano desde Lisboa, em dez horas, apesar da diferença horária ser só de uma. Isto traz-me um grande alívio pois apercebi-me, há pouco tempo, que o jet lag e os seus efeitos maliciosos me adoram – mais especificamente as insónias – e o meu corpo e cabeça simplesmente não funcionam quando precisam de descansar.
Saídas do avião, nada me parece completamente estrangeiro. Olho em volta e vejo frases publicitárias como “Eu sou daqui” e pessoas que falam a minha língua. A nossa língua, que para mim, e não sou a única, é a minha pátria. Talvez por isso tenha um instinto que me vou sentir bem por aqui. Por outro lado, a humidade faz-se logo sentir por baixo das roupas demasiado quentes, apenas apropriadas para donde viemos, e que ainda mantemos, pois a ameaça de mosquitos paira nos nossos cérebros com tantos avisos vindos de casa; o tom de pele maioritário não é o meu; e há um cheiro adocicado e queimado a que provavelmente já me habituei passadas algumas horas, estando prestes a ir dormir. Estes são os sinais de chegada que não estou em casa e por essa mesma razão tudo vai passar muito rápido. É sempre assim. E tudo o que era novidade se torna “normal” (que palavra obscena!), o que era estranho se entranha (segunda referência pessoana, eu sei, vou tentar controlar-me) e daqui a nada esqueço-me que este sítio é único e estes momentos preciosos.
À saída do aeroporto, somos recebidos por um Frei Franciscano, muito novo, com os seus 30 anos, com um sorriso muito bonito e um riso contagiante que nos leva até à casa onde vamos dormir nas primeiras duas noites. Fico muito feliz por ver famílias reunirem-se, todos com cores tão diferentes. Para mim, é isto a civilidade e o que torna um país desenvolvido, mais do que estradas planas ou edifícios grandiosos. Dois cenários, esses, que não encontramos no caminho – as casas inclinam-se para o que em Portugal seria considerado uma barraca, com o que também vi na Índia de pinturas com cores muito vibrantes, na maioria a anunciar uma rede telefónica, uma bebida ou mesmo um detergente. A condução é à inglesa e a cidade pára às 22:30 já que o dia cá começa também muito cedo.
A casa Franciscana faz-me lembrar o colégio onde andei durante 5 anos e o cheiro também condiz. As mensagens de “Paz e Bem” imperam, com fotografias do Papa João Paulo II, que cá esteve. Oferecem-nos uma ceia onde a galinha é rainha, com arroz, batata, cenouras cozidas e mandioca. Provo esta última com um bocadinho de azeite – sabe a uma mistura de batata-doce sem a doçura, castanha sem ser tão intensa mas muito saborosa. Já me disseram que é esta raiz que há em abundância e que vai passar a ser nossa companheira. Óptimo!
Neste momento, escrevo no quarto onde estou sozinha, vizinha da Sofia e da Joana que ficaram juntas e, mais uma vez, sinto-me bem. Gosto muito deste ambiente de simplicidade compensada com ternura e quero viver a minha “experiência missionária”, como fala o Frei Vitor, e não estar aqui de maneira diferente dos que cá vivem. Sinto-me acompanhada por pessoas de bem, segura e em paz. Que mais se pode querer?