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domingo, 24 de junho de 2012

Moçambique #51


06-06-2012

Fomos, mais uma vez, pedir a pen da net ao Director Fadugo - o homem com ar mais assustador à face da Terra - mas vale a pena, para poder enviar uns e-mails, dar notícias e, especialmente hoje, que precisei de fazer um teste online para o processo de recrutamento da Philip Morris. Não estava com o cérebro propriamente descansado, mas teve que ser.

E falando em pedir, não posso deixar de anotar a expressão aqui usada para tudo, o "Estou a pedir". À mesa, "estou a pedir a água"; com a máquina fotográfica, "peço para ver"; para combinar um sítio, "estou a pedir para ser na escola"... Também acho muita graça a usarem só "ainda", em vez de "ainda não". "O almoço já está? - Ainda."

A aula de espanhol, à falta de electricidade foi alumiada pela lua cheia e muito mais divertida. A frase preferida é "A mi me gusta mi cariño/mi novia" e cantámos a música do Pablo Albóran e da Carminho, o "Perdoname" que é sempre uma boa maneira de treinar a pronúncia.

A noite foi de convívio, a trocar mensagens de despedida, a "trançar" e a criar contas de e-mail e Facebook para a malta. 

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Moçambique #50


05-06-2012

Aula de informática? Não tínhamos chaves. Aula de matemática? Não havia luz. Ir ter aulas na carpintaria? Estavam eles em avaliação. Há sempre outros programas, é o que vale. Em vez disto, estivemos a jogar basket, a conversar com os miúdos e a assistir à chegada da nova aquisição da escola - uma iguana/crocodilo que um dos professores tinha apanhado no rio e trouxeram-no para ser estudado.

Voltámos a cumprir a nossa função de bibliotecárias, desta vez também "conselheiras profissionais". Vinham falar connosco e nós perguntávamos o que é que eles gostam, o que é que se imaginavam a fazer no futuro, onde, como é que lá podiam chegar... Nós falávamos da nossa vida, o que é que tínhamos feito até agora e de oportunidades que pudessem ser adequadas para eles. Foi mais uma conversa de amigos e a maior parte quer casar, ter filhos, a sua machamba e, eventualmente, criar um negócio de agro-pecuária. O Arlindo dizia que queria ir para Portugal.

Eles estavam mortos por tirar fotografias, na machamba que eles fizeram aqui na missão e connosco. Fizemos uma shoot no meio das alfaces, das cebolas e das couves, das quais eles estão muito orgulhosos e estão, realmente, preciosas. As fotografias, nem se fala.

Entrei na casa dos formadores para combinar a noite de cinema e fiquei impressionada. É uma divisão húmida, com muito pouca luz e que serve de escritório - com uma mesa com computador, televisão e outros aparelhos - de quarto, cozinha e sabe-se lá que mais. Um dos alunos, o Sacramento, e filho do formador Manuel, já me tinha dito que os professores ganhavam muito mal e que havia muito poucas vagas, mesmo assim, para os existentes. Isto porque o número de escolas só abrange um número ridículo de alunos comparado com o de crianças e jovens neste país. Que muitos também chegavam à 7ª classe sem saber ler nem escrever, não era estranho.

E a vida na escola também não é pêra doce, pelo menos nesta. Organizámos a noite de cinema, no salão paroquial com uma televisão emprestada e os Piratas das Caraíbas 4 pirateado (!) mas os miúdos pouco duraram até depois das 21:00. Já sabíamos que a Lina se levantava às 4:00 todos os dias menos ao Domingo, mas para pôr as coisas do pequeno-almoço na mesa, tomar banho e engomar o uniforme (mesmo assim, não há necessidade). Mas que todos eles têm que se levantar a essa hora... Só consegui olhar para eles com a maior admiração e perguntar-me o que seria de mim se me obrigassem a levantar para limpar a escola e tarefas do género. Ao meio-dia já eles têm um dia normal de trabalho no corpo! Será que há assim tanto com que os encarregar, 200 alunos, todos os dias? Misericórdia...

Por último, estava a Joana de cama com febre a subir muito rapidamente, e nós a achar que era duma distensão que ela se queixava na perna. Estava a ficar muito preocupada, porque de certeza que não era disso mas também não sabia de quê e não descia a febre mesmo com Brufen. Só depois ela se lembrou que tinha encontrado, há uns dias, uma carraça na perna que tinha deixado marca e lá a minha mãezinha disse para tomar uma bomba antibiótica, que fez baixar a temperatura do corpo quase imediatamente e normalizá-la passadas umas horas. Não me venham dizer que a minha maleta farmacêutica é mariquice e que se deve tratar tudo naturalmente, não.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Moçambique #49


04-06-2012

"Eu estou bem", é como muitos por cá respondem a um "Boa tarde" ou "Bom dia". E, neste caso, aplica-se, eu estou bem.

Para além das aulas, estamos também cá para o convívio e hoje tive uma dose intensiva de conversa de um dos alunos, o Francisco, que tem o dom de conseguir falar durante o tempo que for necessário, encadeando tema atrás de tema duma maneira impressionante e nos deixa de boca aberta mas sem sair uma única palavra.

Ele é um miúdo extraordinário, com uma vontade de fazer incrível e com os mais variados interesses, desde a apicultura ao kung fu. Ficou órfão recentemente mas não se acanha nada em falar disso e tem um espírito muito despachado. Só depois relembrando toda a conversa é que descobri as saídas fabulosas que ele tinha tido, são tantas que não dá para acompanhar e mantenho sempre um ar seriíssimo. "Porque eu pressenti a morte do meu pai quando estava no meu quarto, em Maputo - lá eu estudo com os cadernos em cima da cama, mas também temos sofás - e tenho uma ventoinha - a ventoinha tem vários botões - mas depois desliguei a ventoinha mas ela continuou a dar e era ela que me virava as páginas e, nesse momento, tive uma imagem do meu pai a morrer. Foram à escola e disseram à minha prima mas não disseram a mim e ela estava a falar com a minha tia e disse que o meu pai tinha morrido mas achou que eu não tinha ouvido por causa do meu problema de audição mas eu também fingi que não tinha ouvido. Depois disseram que me estavam a chamar em casa e eu vi lá muita gente reunida e, como ainda era muito infantil, pensei - Será que é um casamento? Porque quando os meus pais se casaram também havia muitas pessoas. Mas depois fui chorar para o meu quarto só que os meus primos apareceram e como eu nessa altura era muito infantil e achava que os homens não choravam, limpei as lágrimas para eles não verem mas não por muito tempo, depois continuei a chorar. Mas depois a família do meu pai queria bater na minha mãe porque dizia que ela é que tinha enviado espíritos para o meu pai para o matar e ficaram todos zangados sem se falar". Falou também da Igreja Universal, de como o Fernando Picane é obreiro e ele próprio só tem poderes por causa da fé dele. Quando a Gina Cabral estava com espíritos, chamaram os dois e o Júlio e o Picane trouxe azeite e água que pôs na Gina e não resultou, então passou a energia para ele e a Gina começou a correr feita louca. Ninguém a conseguia agarrar e, só quando ele passou o poder para o Júlio, é que a conseguiram parar. Outro, de como o trouxeram aqui para a escola, porque ele pensava que vinha para um estúdio de música mas depois passados dois dias viu "Naa, isto não é um estúdio de música!". Ao início não gostou mas depois começou-se a interessar pelos animais e a fazer amigos mas a missão dele é ajudar as pessoas de Nhampopo que são analfabetas. Este rapaz não existe, devia ser filmado.

À noite, com uma lua cheia poderosa, a Sofia deu finalmente a aula de Origami e eu fiquei maravilhada por, com os alunos, aprender a fazer uma caixa! Eles adoraram, mais ainda fazer rosas, corações e sapos enquanto ouvíamos a música que faz furor agora, a "Puxa Mazambane", hit este que quer dizer, "Puxa a batata" e é sobre trabalhar na machamba com um ritmo como eu nunca ouvi, que é impossível não dançar e não nos desmancharmos a rir. Já se tornou o meu toque de telemóvel.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Moçambique #48


03-06-2012

Dia de pseudo-ressaca. O meu corpo quis acordar às 7:00, já está bem treinado, mesmo só com 3 horas de sono, mas obriguei-o a preguiçar até às 11:30. Quando a Lina me disse que acordou às 6:00 para ir à missa sofri muito por ela. Que martírio.

As pernas doem de dançar a passada mas o espírito está alegre e leve.

A professora de Educação Física/Biologia tem estado doente com malária e não pôde vir ao torneio mas, nem isso, nem a chuva, impediram que ele se realizasse. Com os atrasos do costume, jogaram as três equipas entre si. Uma delas, que jogou duas partidas, soube logo que era vencedora antes das outras jogarem o terceiro jogo mas quiseram, mesmo assim, lutar para não ficar em último, para não serem “cuanhamas”, como eles dizem.

Arbitrámos os jogos e entregámos os prémios, uma pulseira de plástico de equipas de futebol, tipo Arsenal e Real Madrid, e uma caneta. Caneta essa que o Fernando amou porque "não é preciso fazer força!", é só rodar a parte de cima para o lado direito e não carregar no topo. Extraordinária!

Mas toda a senhora ressaca pede gordura e, nos trópicos, isso não se altera. Felizmente, foi falso alarme a explosão do fogão e forno por isso aventurámo-nos a fazer um bolo de chocolate. Feito a olho, sem fermento, com uma barra de chocolate dos chineses e uma forma que vazou, o resultado... podia ter sido melhor. Cru, sensaborão e muito denso, deu para amainar a gula que uma salada de frutas, por sua vez deliciosa, não conseguiu afugentar.

Ao lanche, avistei uma garrafa de piri-piri, que andava com curiosidade em provar e que caiu muito bem com pão com manteiga e sal. Era delicioso, não só picante, tem imenso sabor! Mais um kit para levar comigo. Já combinámos que, à volta, vamos fazer uma festa de comida, à gordas assumidas, com tudo o que é bom: pizza, gelado, comida do Nood, bolinhas caseiros... e imediatamente a seguir ir parar ao hospital com uma apendicite e/ou congestão.

sábado, 28 de abril de 2012

Moçambique #5

21-04-2012
Último dia dos nossos companheiros de viagem connosco. O Carlos, o Sérgio e o Frei Vítor vão continuar para outras missões até dia 1, quando voltam para Portugal.
Fomos visitar as Missionárias de Maria em Guíua e o cemitério onde estão enterrados vários formandos das missões, que há alguns anos foram mortos por rebeldes moçambicanos que eram a Igreja Católica. O Frei fez questão que lá passássemos a ver as campas com os nomes todos mas não é o melhor sítio para levar três miúdas que vão ficar em casa de frades por cá…
Conhecemos uma menina amorosa, a Rute, que nos mostrou o caminho até lá e tinha uns chinelos com a bandeira de Portugal.
Tirámos a tarde para lazer completo e fomos para uma zona ao pé do mar, que está cheia de lodges construídos por sul-africanos no sítio mais paradisíaco que se possa imaginar. Almoçámos na zona do Tofo, que no Verão está apinhada de turistas, mas que agora estava praticamente vazia mesmo estando um tempo óptimo para tomar banho, com água a uns 25 graus. Nota: vir cá passar férias no “Inverno” moçambicano. Ainda houve tempo depois para estar num bar de praia e do Frei Filipe, o nosso condutor do dia, tomar um whisky duplo.
Acabámos a visitar o Frei Salvador na paróquia de Inhambane. Fez-nos uma visita guiada, ofereceu um Ricofizinho e umas ervas secas, a moringa, que ele jura fazerem bem a tudo e indicou que o Frei Filipe tomasse aquilo todos os dias. Ainda gostava de levar a moringa para um laboratório e ver realmente o que é aquilo! Mais uma vez, que simpatia e acolhimento por parte de toda a gente. Sinto-me verdadeiramente confortável logo que conheço a maioria desta comunidade, que achava ser muito mais tímida e reservada mas carinho é aquilo que encontro sempre. Carinho com imensa consideração por nós, quando não merecemos nada disto, utilizando sempre um “obrigado” quando nós dizemos “boa tarde”.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Moçambique #3

Jangamo, Inhambane, Moçambique
19-04-2012

Já quase me conformei com o facto de que paisagens estonteantes são muito difíceis de reproduzir. Acredito que uma fotografia deve contar, por si só, uma história, mas um lugar mágico tem mais que muitas para contar, não só uma, e daí a dificuldade em retratá-lo. Os mais dotados talvez a consigam transformar em palavras, mas eu resigno-me com a minha falta de competência nesta matéria. Não se pode reduzir apenas a uma dimensão um aperto de mão caloroso nem uma baía de perder de vista. Certos lugares hoje foram assim, felizmente.
Saímos de Maputo às 5:30 e às 8:30 mata-bichámos com outras irmãs Clarissas pelo caminho. Desta vez já estávamos mais a par do que fazem e por isso tivemos conversas mais descontraídas e foi como se tivéssemos vindo visitar amigas de há muito. É, mais uma vez, com a maior simpatia que nos recebem e ficam felizes ao saberem que iremos ficar dois meses em Inhambane, terra natal de uma delas. Ainda não têm mosteiro para estarem em clausura pois só chegaram aqui faz um ano. Assim, mostraram-nos o terreno onde já têm flores de todas as cores, erva-príncipe, mandioca, cajueiros e laranjeiras tal como dois canitos e um casal de porcos que, aquando do nascimento de uma cria, voltam aos donos originais para que as irmãs fiquem com o pequeno. A igreja era muito kitch, com as paredes pintadas de cor-de-rosa e verde-água, vitrais com cores primárias e um chão muito retro, com azulejo a preto e branco em diagonais. Vê-se que precisa de ser restaurada mas é muito especial e recebe alguns turistas.
Antes de nos despedirmos, ainda fomos requisitados para ajudar uma das irmãs, portuguesa, a tratar de arranjar a impressora. Todo o cenário era digno dum filme do Woody Allen – com coqueiros lá fora, a irmã com sotaque bracarense cerrado, óculos desproporcionalmente grandes para o tamanho da cara e hábito castanho e branco, a explicar-nos como já-tinha-instalado-a-impressora-toda-XPTO-Laserjet-mas-que-o-processo-de-instalação-não-tinha-acabado-porque-a-Internet-tinha-ido-abaixo-mas-agora-já-estava-a-funcionar-e-o-tone- e-novo-mas-o-Windows- tinha-ar-de-ser-o-primeiro-lançado-pela-Microsoft, isto enquanto estava sentada com o ecrã do computador inclinado para cima dela e a mexer no terço, que trazem sempre pendurado na corda, que podia ser que o Santíssimo também ajudasse nestas ocasiões.
Estrada fora, entrávamos agora num tipo de paisagem ligeiramente diferente, com mais coqueiros, terra muito argilosa e menos casas de cimento, mais de esteira, mas sempre com planície muito vasta. Quase a chegar a Inhambane, parámos na baía mais maravilhosa que alguma vez vi, de um azul e verde tão intensos… Provei água de coco e lenho, o coco quando é fresco e comprei o novo vício, caju torrado. Num contacto mais próximo com os vendedores e a malta que se reunia à nossa volta, deu para perceber que eles parecem um pouco tímidos ao início mas que têm o sorriso mais bonito quando este aparece.
Ao chegar à nossa casa, fomos recebidos pelo Frei Filipe Quenquene, que vai estar connosco nas próximas três semanas e por três rapazes que também cá vão estar e são aspirantes a frades, os postulantes. Houve gazela, arroz com um folha que ainda hei-de descobrir o que é, e uma iguaria típica – matapa. Consiste em folhas de mandioca e amendoim triturados com leite de coco. É absolutamente delicioso como molho a acompanhar o que quer que seja e não saio daqui sem estar expert em cozinhá-lo. E comê-lo, claro.
Tivemos ainda tempo de ir ao mercado e conhecer um bocadinho da cidade de Inhambane, que fica a cerca de 25 minutos de carro por uma estrada fascinante. Aí, vêm- se as povoações construídas em palhotas de uma espécie de areia cimentada, muito planas, no meio dos coqueiros e era como eu imaginaria África logo quando ouço a palavra. Há também homens, mulheres e crianças a tentar vender camarão ao estendê-lo em frente aos carros que por lá passam e muitos chapas a passar apinhados – mini-vans de 15 lugares onde vão umas 25 pessoas e que é o meio de transporte mais comum.
O mercado era muito rico, colorido e animado, com piri-piri, coco, tomates, abacaxis, artesanato, tabaco e tudo o que se possa precisar. Cheira-me que ainda vou passar aqui umas belas horas a deambular e deixar cá uns quantos meticais.
Temo-nos divertido com os nomes dos boteques, tais como – Contra Stress – e de mensagens que põe à porta de casa, em que a melhor até agora foi – Não queira conhecer da minha vida, maneira educada de dizer “Não metas o bedelho onde não és chamado!”
Para terminar e fazer um círculo completo, voltámos para o céu mais brutal que já vi, com mais uns quantos milhares de estrelas a mais do que o “nosso”. Já o começámos a tentar retratar, mas estou sem grandes expectativas. Ainda bem, já que é por estes momentos irrepetíveis que saio do meu país de vez em quando.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Moçambique #2

Maputo, Moçambique
18-04-2012

Só de manhã me falaram do que são os sons da noite africana. E em Maputo são muito softs, os verdadeiros são na selva, os que nos esperam. O desta noite era um som mecânico, bem audível e agudo que vim a saber ser dum pássaro. Não sei que pássaros têm eles aqui, mas o pobre deve andar sempre num estado de transe para se conseguir ouvir durante tanto tempo.
Estava curiosa em saber como seria a comida aqui, é esse o meu pecado maior, a gula! O mata-bicho – vulgo pequeno-almoço – foi bastante tradicional, com torradas e café com leite mas com marcas que os nossos colegas dizem ser da infância deles, como o chocolate em pó Milo. Não tão tradicional foi o prato que o Frei Vítor nos ofereceu a provar – abacate esmagado com casca e sumo de laranja. Provei e por aí fiquei. O almoço inclui galinha, legumes cozidos e uma feijoada de feijão branco super saborosa, para além de fruta como a papaia e banana. E até há vinho e cerveja! Está salva a pátria.
De manhã, demos umas voltas de carro com o Frei Evódeo, o responsável da casa onde estamos, para ter uma ideia geral de Maputo. As ruas são todas muito planas, com um travo a Nova Deli, devido às influências inglesas, separadas por um passeio a meio, e fiquei surpreendida por ver que os riquexós são iguais. Não esperava encontrar o banco Millenium, os cafés Delta e a Galp, nem nomes tão bonitos como Tomás e Henrique. Nem isso nem lojas de indianos a vender vinho alentejano ou tanto nome de rua “revolucionário” como Karl Marx, Mao Tse Tung ou mesmo Kim Il Sung.
Visitámos a antiga casa dos pais do nosso companheiro de viagem Carlos, que depois da independência, a 25 de Junho de 75, a deixou aos seus empregados que a transformaram numa serralharia. Fomos também à Igreja principal de Maputo; a duas casas lindas e muito cinematográficas mesmo ao lado, uma delas construídas pelo Eiffel (em metal…); a marginal, que muito faz lembrar a do Rio de Janeiro, com o Índico no seu melhor e casas paradisíacas à frente plantadas; e, em aspectos mais mundanos, comprámos um cartão SIM que baixa consideravelmente os custos de comunicação com a terra-Mãe e os que lá ficaram.
A primeira grande surpresa viria mais tarde, quando guiámos mais de uma hora para ir visitar quatro irmãs Clarissas, de Santa Clara de Assis, com os quais os Franciscanos têm uma relação especial. O caminho para lá foi o primeiro verdadeiro contacto com esta realidade, com gente a vender desde mangas a partes de bicicletas à beira da estrada, plantações de mandioca e milho, uma mata verde gloriosa (achava que era tudo tão mais seco!) que depois se transforma em montanha com vales de perder de vista. Mas voltando às irmãs, estas vivem lá apenas há um ano, na cidade de Namaacha, três espanholas e uma moçambicana. Estivemos com elas um bom bocado, em que pudemos contar o porquê da nossa vinda e futura estadia em Inhambane mas, principalmente, pôr-lhe todas as questões que quiséssemos.
Descreveram-nos o seu dia-a-dia, a começar às 5:30 com três horas de orações e leituras até ao pequeno-almoço. Falaram-nos da sua caminhada até se encontrarem naquele local, que consideram ser a sua vocação, e que parte também do ser missionário. E qual é a diferença entre estarem aqui, longe de tudo e todos ou em Espanha, se estão em clausura de qualquer maneira? Responderam que era necessário que este povo sentisse que também estava incluído nas suas orações e que podem recorrer a elas sempre que precisarem. 
Além de rezarem e fazerem adorações, também fazem trabalhos manuais que vendem e, por vezes, oferecem umas às outras nos dias de aniversário. Foi curioso ficar a saber pequenos pormenores das suas vidas. Têm que cortar o cabelo quando entram para o mosteiro; uma vez entrando num, devem morrer lá; usam uma portinhola para comunicar com o exterior; e apenas nos recreios podem conversar umas com as outras. O que mais me tocou foi o sorriso largo e o carinho com que nos receberam pois sentem que estarem connosco é também uma forma de estarem com Deus e é para isso que vivem. É preciso sentir mesmo um chamamento para viver uma vida que a maioria de nós acharia impensável mas que elas sentem, e conseguem transmitir, não poderia ser mais completa. Isto não deixa de me intrigar e fascinar ao mesmo tempo. Elas são como que o pulmão da Igreja, diziam – alguém tem que manter a oração e a comunicação com Deus vivas.
 No outro extremo, e sinto que isso é grande parte desta cidade, existem sítios como o Hotel Polana que nos transportam para o que em tempos terá sido palco de festas impensáveis e grandes extravagâncias. É dos hotéis mais bonitos que já visitei, consegue manter um estilo clássico e sóbrio, mas ao mesmo tempo imponente. Aí estivemos a beber um copo acompanhado com cajus torrados e não deixo de me sentir culpada por saber que faço parte do 1% que ignorantemente consideramos serem a maioria. Que é difícil imaginar por aquilo que a família do rapaz que nos serve já passou. E mais difícil ainda é saber as tentativas fracassadas que já houve para isso mudar e se alguma vez terão sucesso.

Moçambique #1

Maputo, Moçambique
17-4-2012

Estou em África. Nunca me imaginei poder dizê-lo aos 22 anos. 22 anos, 2 meses e 2 dias.
Estou em África, depois de ter vindo da Índia, outro sítio que é a viagem de uma vida. Ele há gente com muita sorte, não há?
Viemos em linha recta pelo continente africano desde Lisboa, em dez horas, apesar da diferença horária ser só de uma. Isto traz-me um grande alívio pois apercebi-me, há pouco tempo, que o jet lag e os seus efeitos maliciosos me adoram – mais especificamente as insónias – e o meu corpo e cabeça simplesmente não funcionam quando precisam de descansar.
Saídas do avião, nada me parece completamente estrangeiro. Olho em volta e vejo frases publicitárias como “Eu sou daqui” e pessoas que falam a minha língua. A nossa língua, que para mim, e não sou a única, é a minha pátria. Talvez por isso tenha um instinto que me vou sentir bem por aqui. Por outro lado, a humidade faz-se logo sentir por baixo das roupas demasiado quentes, apenas apropriadas para donde viemos, e que ainda mantemos, pois a ameaça de mosquitos paira nos nossos cérebros com tantos avisos vindos de casa; o tom de pele maioritário não é o meu; e há um cheiro adocicado e queimado a que provavelmente já me habituei passadas algumas horas, estando prestes a ir dormir. Estes são os sinais de chegada que não estou em casa e por essa mesma razão tudo vai passar muito rápido. É sempre assim. E tudo o que era novidade se torna “normal” (que palavra obscena!), o que era estranho se entranha (segunda referência pessoana, eu sei, vou tentar controlar-me) e daqui a nada esqueço-me que este sítio é único e estes momentos preciosos.
À saída do aeroporto, somos recebidos por um Frei Franciscano, muito novo, com os seus 30 anos, com um sorriso muito bonito e um riso contagiante que nos leva até à casa onde vamos dormir nas primeiras duas noites. Fico muito feliz por ver famílias reunirem-se, todos com cores tão diferentes. Para mim, é isto a civilidade e o que torna um país desenvolvido, mais do que estradas planas ou edifícios grandiosos. Dois cenários, esses, que não encontramos no caminho – as casas inclinam-se para o que em Portugal seria considerado uma barraca, com o que também vi na Índia de pinturas com cores muito vibrantes, na maioria a anunciar uma rede telefónica, uma bebida ou mesmo um detergente. A condução é à inglesa e a cidade pára às 22:30 já que o dia cá começa também muito cedo.
A casa Franciscana faz-me lembrar o colégio onde andei durante 5 anos e o cheiro também condiz. As mensagens de “Paz e Bem” imperam, com fotografias do Papa João Paulo II, que cá esteve. Oferecem-nos uma ceia onde a galinha é rainha, com arroz, batata, cenouras cozidas e mandioca. Provo esta última com um bocadinho de azeite – sabe a uma mistura de batata-doce sem a doçura, castanha sem ser tão intensa mas muito saborosa. Já me disseram que é esta raiz que há em abundância e que vai passar a ser nossa companheira. Óptimo!
Neste momento, escrevo no quarto onde estou sozinha, vizinha da Sofia e da Joana que ficaram juntas e, mais uma vez, sinto-me bem. Gosto muito deste ambiente de simplicidade compensada com ternura e quero viver a minha “experiência missionária”, como fala o Frei Vitor, e não estar aqui de maneira diferente dos que cá vivem. Sinto-me acompanhada por pessoas de bem, segura e em paz. Que mais se pode querer?