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domingo, 6 de maio de 2012

Moçambique #17

03-05-12
A Irmã Adriana continua doente e sem ir ao hospital. Como ficámos um bocado perdidas sem ela ontem, sem saber se estávamos a criar confusão ou ajudar, decidimos ficar a fazer-lhe companhia ao almoço e fomos apenas à escolinha durante a manhã e a tarde serviu para pôr leituras em dia e estar por casa.
Continuei a trabalhar com os miúdos no caderno, para treinarem a destreza com o lápis, através de exercícios de contornarem pontinhos de modo a criar diferentes formas. Quando já estão cansados, cantamos as músicas novas, tais como, “Doidas, andam as galinhas” e “Eu vi um sapo” ou as que eles já sabiam e que têm letras como “No Domingo fui à matiné, e encontrei a Dadinha” e  “Na casa da Raquel havia uma festa”, em que dançam muito, e outras como “Lava a cara de manhã cedo, os dentes com uma escova, penteia-se muito bem, para bonita ficar”, que cantamos quando chegamos. A Sofia filma no recreio, de vez em quando, com o telemóvel, e ainda bem para que mais tarde nos venhamos a embevecer e ficar cheias de saudades. Fizeram também um desenho, em que pedíamos que desenhassem alguém da família e pintassem, que depois fazíamos a legenda, e saíram obras de arte muito giras e outras simplesmente cómicas! Guardei ainda o nome de todos os da minha turma, 40, para usar nalgumas actividades futuras. Não tenho nenhum fabuloso como os que apanhei na maternidade mas tenho o Kelven, o Nirod, a Alucha e a Mirela da Cátia.
As Irmãs recebem-nos sempre muito bem ao almoço e adoro quando aparece uma hortaliça nova à mesa e deliciosa e que, surpreendentemente, nós, pelas palavras delas, “nem daríamos aos porcos”, tais como folha de feijão frade ou de abóbora, mas que elas transformam numa iguaria.
O Frei Filipe, o nosso pai daqui, tem estado em Maputo desde 3ª feira e volta Sábado mas hoje ligou só para saber se estava tudo bem. Já o Frei Anselmo, logo no primeiro dia que fomos para a escolinha, ligou-nos a dizer que já estávamos há muito tempo fora e que ele tinha sentido a nossa falta. Eu não quero imaginar quando estivermos numa de despedida a sério!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Moçambique #16

02-05-12
Tenho andado um bocado doente, constipada, mas nada que uma boa dose de trabalho não obrigue a resolver.
Temos andado a pensar num presente para os miúdos e para as irmãs e como podemos prolongar os efeitos da nossa estadia por aqui. Por enquanto, já planeámos as actividades novas que vamos ensinar na sala, para que as titias possam continuar a fazer, tais como origami, quantos-queres, músicas que fiquem no ouvido com gestos, desenhos com papel vegetal… Também quero deixar uma ficha de cada miúdo, com o nome, idade, impressão digital, fotografia, o que querem ser quando forem grandes, cor e comida preferida, entre outros.
À tarde, a seguir ao hospital, ainda fomos a Maxixe, para adiantar um saco-presente que lhes vamos deixar com: um rebuçado, um caderno, um lápis de carvão e o que eles chamam de pipoca - um pacote pequeno de fritos, que eles estão sempre a comer no recreio. Para a escola, comprámos umas bolas de futebol, uma caixa de cem paus de giz e o Frei deu-nos umas canetas de feltro. Os miúdos ficam todos contentes, a Irmã Teresa mais ainda, e a nós não custa nada.
No hospital, a Irmã Adriana não estava pois tinha ficado em casa por estar doente, e nós ficámos as três na parte de consultas de mamãs e na farmácia. Estava tudo bastante caótico e parecia feito à balda, dando-se muito pouca atenção a cada mãe/futura mãe e ficámos um pouco desanimadas ao pensar que nem tudo é feito com a maior atenção aos pormenores e que pode levar a erros graves. Só era medido o tamanho da barriga, a tensão arterial, ouvido o coração do bebé com um objecto cónico de madeira, perguntava-se dormia com rede mosquiteira e de quantas semanas estava (várias não faziam ideia) e pouco mais… O resto da ficha, com mil e um pontos por preencher, levava com um risco em cima e estavam sempre umas cinco mães ao mesmo tempo dentro da sala.
Ainda é cedo para podermos dar palpites, e limitamo-nos à nossa ignorância, mas também temos vontade de fazer o máximo possível enquanto estamos aqui e, por isso, temos que estar mais tempo nos sítios e continuar a falar com as pessoas para perceber como tudo funciona e como poderia melhorar.

Moçambique #15

01-05-12
Este foi um dia que deu para perceber como seriam as férias de Verão dos meus pais e avós há uns anos atrás, pelo que eles contam.
Mesmo sendo feriado, acordei pouco passava das 7, para não ficar com os horários trocados o resto da semana, bebi um chá e comi uma carcaça com manteiga. Arranjámo-nos rapidamente e fomos à biblioteca aqui da missão, com 99% dos livros sobre São Francisco ou relacionados com o Catolicismo, como seria de esperar.
Demos uma volta à vila, que fica a vinte minutos a pé de casa. Lá, a Sofia comprou farinha e óleo para fazer uma espécie de plasticina para os miúdos numa loja em que, tal como as outras, a velocidade de atendimento é irrisória. Tal como numa aldeia, a polícia que lá estava a tomar um refresco, disse que já nos tinha visto por ali e, duma maneira um bocado creepy, disse “mas vocês ainda não me tinham visto a mim!”.
Fomos aos Correios, com pouca esperança de estarem abertos, mas logo um senhor nos veio indicar onde estava a senhora que lá trabalha – em casa, ao lado do local de trabalho -  mas que, amavelmente, veio abrir para podermos enviar umas cartas! Demos ainda uma volta pelo mercado, à procura de banana-maçã, um fruto estranhíssimo mas delicioso.
Ao almoço, come-se o que esta terra e altura do ano dão: laranjas, tangerinas, coco, limões, mandioca, cebola, feijão, abóbora, e ainda temos galinhas, coelhos, cabras e patos. Durante a tarde entretemo-nos a fazer sumo de laranja só a espremê-las com as mãos, a ver um filme e a tocar viola, uma nova que vieram emprestar. Quem precisa de quê, para além do que é simples?

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Moçambique #14

30-04-12
A energia hoje esteve em alta! Não sei se por ser início de semana, se pelo banho de mar, por nos habituarmos ao tempo quente mas estou mais inclinada para que tenha sido a necessidade i.e era mesmo preciso que hoje houvesse energia!
Alvorada habitual, chá Five Roses que o Ricoffy já enjoa, e escolinha com ele. Lá, estivemos concentrados nos cadernos que eles costumam usar, para treinar a destreza manual e algumas letras e números. Destreza essa que é escassa e 80% dos miúdos de cinco anos, não conseguiam fazer o número 3. Muito suei eu para que todos, ao fim de uma hora e tal tivessem dois 3 escritos no caderno! Alguns tentavam pôr-se em cima da folha e esconder o que estavam a fazer e iam olhando para cima a ver se eu continuava lá ou se tinham escapado. É mais fácil com duas pessoas a trabalhar com uma turma de quase 40 miúdos, como está agora, e a titia muito se deve esforçar para os ajudar, mas é preciso muita paciência e resiliência. Outros simplesmente não faziam nada até eu ir lá pegar-lhes na mão para escrever e, uma ínfima parte, mais aqueles que já estão nas escola desde os 3 anos, conseguiram à primeira. Disto passou-se para o alfabeto e contei uma história nova, que pouco tempo resta.
Fomos então para o hospital, a vinte minutos a pé da escola, de sandocha e tangerina na mochila. Estava muita gente, como da última vez, e é costume. Eu fiquei na parte das consultas de mamãs,  em que a todo o minuto a técnica que lá está pode ser chamada para realizar um parto, o que já tinha acontecido por três vezes nesta manhã. Adorei pesar uns quantos bebés, todos com menos de uma semana de vida, e preenchia a avaliação da evolução deles desde o dia de nascimento. Fiz também umas poucas “fichas” de novas mamãs que se quisessem inscrever – um papel amarelo do tamanho de dois cartões de visita, com o nome, data, valor da hemoglobina e assinatura da técnica (que fazia eu, era só um “T.P.C”) – com as quais muito me diverti já que aparecem nomes de mães, pais e filhos como “Cigarete” e “Castigo”. Mas a maior parte do tempo que lá estive, foi a dosear comprimidos, tais como Sal Ferroso e Paracetamol, para encher em mini-sacos zipados em que se escreve o nome e o modo de os tomar e a conversar com o farmacêutico sobre o hospital, enviados em grandes quantidades duma organização dinamarquesa chamada Missionpharma.
A Sofia também esteve na parte da farmácia mas a Joana foi para a casota da Irmã Adriana, onde se faz uma consulta de triagem e certos tratamentos mais urgentes, tipo feridas. Eu isso não consigo fazer mas, e ainda bem que não somos todos iguais, a Joana adora e fez um trabalho que em muito ajudou a Irmã. Logo nos primeiros minutos estava a receitar (!) comprimidos para serem aviados na farmácia de acordo com os sintomas do doente, que costumam ser indicativos de malária, pneumonia ou HIV, com a Irmã a dar o seu aval. É este o melhor indicativo de falta de pessoal por estas bandas e de como mesmo nós, sabendo tão pouco, podemos dar sempre uma mãozinha. Hoje, o tempo de atendimento desta casota foi, assim, tão simplesmente, reduzido para metade.

Moçambique #13

29-04-12
Temos andado a visitar várias comunidades aqui perto mas ainda não tínhamos sido apresentadas na nossa. Hoje foi o dia.
Logo pela fresca, o Frei François celebrou missa de mais de uma hora e meia, como sempre. Houve os já habituais cânticos, batuques, danças e igreja cheia na qual fomos convidadas, mais uma vez, a dar testemunho. Desta vez, ainda fomos melhor acolhidas, com as pessoas a levantarem-se para virem cumprimentar-nos a dizer “Sintam-se em casa!”. Que mais se pode pedir?
Como não havia programa de tarde, porque não dar um saltinho à praia? Os Freis também adoram e nós todos os dias sentimos na pele (!) que precisamos de uma corzinha. Parámos primeiro numa bomba de gasolina artesanal – um miúdo com garrafões de cinco litros de gasóleo – e fizemos à estrada para parar na Barra. É uma praia feita para turistas, mas que nesta altura são escassos, para nossa felicidade. A praia era praticamente nossa e o tempo e água quentes.
À vinda e já a escurecer, vejo o porquê do cheiro a queimado permanente nesta terra e que adoro – queimadas de galhos secos e arbustos à beira da estrada e umas muitos grandes, no meio do mato, hoje maiores e em maior número já que não tinha havido electricidade durante todo o dia. Costuma estar em manutenção aos Domingos, dizem.
Os fins de dia aqui são como eu gosto e inesquecíveis: a linha do horizonte torneada por milhares de coqueiros com um degradé perfeito a começar num cor-de-laranja tijolo e acabar num azul claro límpido. Com Bob Marley a tocar no jipe e a pele salgada pelo Índico é perfeição.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Moçambique #12

28-04-12 #12
Mais um dia de festa na comunidade, outra vez no meio do mato mas, agora, um casamento! Ao ar livre, debaixo dum coberto de madeira e folhas de palmeira, adornado com flores lilases e brancas, chão de terra arenosa – como em todo o lado -  e as vestimentas mais dignas de fotografia possível. As mulheres vestem todas capolana, um tecido colorido com os padrões africanos de cada zona ou país, que pode ser usado como saia ou transformado em vestido, camisa, pano para a cabeça ou mesmo para servir de decoração nas paredes e mesas. Nós já comprámos uma e o Frei Filipe ofereceu-nos outra quando chegámos, uma azul céu com imagens de palmeiras, Nossas Senhoras, peixes, tudo num mix harmonioso para celebrar os 50 anos da Paróquia. Capolana essa que levámos hoje e que já muitas pessoas nos ajudaram a pôr decentemente!
Não é raro ter que ser o carro do padre a ir buscar os noivos para a igreja e levar depois para o copo de água e foi isso que aconteceu. Lá fomos nós apertadinhos, com ainda mais convidados na bagageira, mas num silêncio sepulcral já que a noiva só grunhiu um bom dia e estava com um ar de quem ia para a forca. Os Freis já nos tinham dito que, aqui no sul, havia noivas que se tornavam como que escravas para a família do noivo e foi imediatamente isso que pensei quando olhei para o ar de infeliz da senhora… O Frei diz que não, que eles só estavam stressados porque deviam ter ido ao registo antes da cerimónia, que o casamento já ia começar atrasado… tenho as minhas dúvidas. Acontece que a noiva, assim que se casa, passa a fazer parte da família do marido e já não da sua onde nasceu. Assim, os pais da noiva têm que pagar um dote à família do noivo para que esta tome conta da sua filha, e há uma grande pressão nela de honrar o nome dos pais na nova família. Ela passa a ter que tratar de tudo de todos na nova família e chega ao ponto de, se o marido morrer, um irmão poder tomar o lugar do falecido! Os Freis muito abanam a cabeça de descontentamento quando contam isto. No entanto, dizem que ninguém é obrigado a casar, mas que também é impensável ficar sem marido…
Cá por casa, foi tarde e noite de “recreação”, como é chamada, que acontece uma vez por mês. É dia de festa, e os frades daqui não são o que se imagina – calados, recatados, sérios – são os que têm mais energia, o riso mais forte e vontade de estar sempre a mexer! Nós, fizemos brigadeiros para sobremesa porque achámos ser o mais fácil de fazer com os ingredientes que temos por aqui, sem frigorífico, forno, e com fogão a lenha. Não saíram mal, para a próxima aventuramo-nos com um bolo que já apalavraram ao Frei emprestar um forno quando for preciso! Estivemos também a tentar arranjar a viola que está cá, mas sem sucesso; lavámos a roupa no tanque; lanchámos tangerinas e feijão fresco cozido e ainda estivemos a fazer hóstias. De noite, a festa foi animada, com muita cerveja preta, comida e música africana, um bocadinho de reggae e mesmo portuguesa que dançámos com os Freis! Eles não são, de todo, típicos, volto a enfatizar.

Moçambique #11

27-04-12
What a day.
Acordei preocupada ao ver que não tinha Mephaquin, para a malária, em quantidade suficiente até ao fim dos dias aqui. Valeu-me o excesso que a Sofia trouxe!
Estivemos com os miúdos no recreio - a 6ª feira é passada ao ar livre - e tirámos uma grande fotografia de grupo, deles com as titias e as Irmãs. Passámos num café vizinho, a Pousada de Cumbana, em que a dona é tia da Mariza fadista, que visita a tia Marta sempre que vem a Moçambique. Estivemos também com uma empreendedora aqui da zona, a Mamã Rute, que tem todo o tipo de fruta no seu terreno e é uma grande amiga dos Franciscanos de cá.
Já sabia que a seguir íamos visitar a Irmã Adriana, enfermeira angolana, ao hospital de Cumbana, onde é a escolinha, mas nem sequer pensei muito nisso nem achei que me tinha de preparar emocionalmente. Também acho que não teria valido muito a pena. Sou daquelas maricas que ficam agoniadas só de pensar em ir a uma consulta, que não conseguem olhar para as seringas quando levam uma vacina e que quase desmaiam quando vêem sangue mas penso que mesmo que não fosse, teria o choque que tive na mesma, hoje. 
O hospital… são várias casinhas espalhadas por um terreno, algumas mesmo palhotas, com o mínimo de tudo para funcionar. O mínimo de pessoal, de material, tudo. Há a casinha das consultas, a primeira onde entrámos, e onde a Irmã Adriana estava a tratar um bebé que tinha caído de cara num balde de água a ferver e estava a renovar os pensos. O bebé só conseguia gritar e chorar, ao tirarem-lhe a gaze que cobria a cara toda, sem qualquer tipo de anestésico. Essa casinha tinha cerca de 100 pessoas sentadas cá fora à espera de entrar, com uma enfermeira e uma técnica disponíveis.
Duas tendas grandes e brancas são a maternidade, já que o antigo edifício desta está a ser arranjado. Lá encontrámos um bebé que tinha nascido durante a manhã, a mãe não devia ter mais de 16 anos e, a fazer-lhe companhia, outra criança de uns 12 anos. Há também a casinha da farmácia, da vacinação e uma outra que acolhe futuras mães, que moram longe e estão a menos de um mês do parto, e ficam ali no hospital até terem a criança.
É doloroso pensar que há opções tão escassas para estas pessoas quando estão perante a doença, o quão fácil é morrer por falta de tão pouco nesta terra… Mas o choque tem que ser transformado em acção e para a semana vamos passar a ajudar também no hospital. Tem que ser. Não sabemos fazer muito mas tudo é melhor que ficarmos paradas.
Tenho uma nova heroína, esta Irmã Adriana, que criou todo este espaço do zero para acolher, principalmente, mães e filhos que precisem e que, de outro modo, não sei mesmo o que fariam. Trabalha todo o dia no hospital, lida com a miséria e enfermidade e, mesmo assim, quando às vezes vem almoçar connosco, mostra a maior leveza de espírito, energia e bondade.
Eu tenho muita sorte de a ter conhecido e espero poder contribuir, provavelmente só uma migalha, para o sonho que ela teve e está a tentar tornar realidade.