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quinta-feira, 31 de maio de 2012

Moçambique #29


15-05-2012

Na véspera da partida, foi o dia em que mais me senti em casa. Um mês foi o tempo mais acertado para cá estarmos.

O dia começou em alegria, ao sair do chapa, a rasgar as calças com um ferro saído, mesmo no meio do rabo, para risada dos miúdos que estavam perto. A capolana que trazia como lenço à cabeça foi a salva-vergonhas! Combinamos ir à Maxixe com a Irmã Teresa, para ir ver de capolanas e comprar material escolar que ficasse na escolinha. Mas, sobretudo e muito importante, estarmos com a Irmã, como num passeio de amigas. Ela, de vez em quando, menciona que é muito bom ter-nos cá para matar saudades dos portugueses. É algo em que, se calhar, não se pensa muito, afinal falamos todos a mesma língua mas as culturas, hábitos e mesmo maneira de falar não deixam de ter as suas diferenças. Ela gosta de perguntar pelas nossas vidas, falar de terriolas portuguesas, Mirandela incluída, com as suas "duas pontes iluminadas e um rio, bem bonitos!" e saber notícias de Portugal (mas também faz questão de se manter informada cá e as frases "Eu bem sei como é lá agora... as pessoas não querem ser gordas, não é?" são fruto dessa investigação profunda). Para além de que, quando a ouço, estou maioritariamente a rir, sem intenção da parte dela. Tudo o que a nossa santa diz é com o ar mais sério, mas não é possível encará-la como merece quando é constante o calibre das suas saídas, tal como aquela em que disse que "logo em nova já tinha pensado muito em seguir a vida religiosa, batalhei com os meus pais, disse que queria ir para a casa das Irmãs, eles não queriam, mas decidi-me logo que era isto o meu sonho" e, ao perguntarmos quando foi esse momento-chave, responde "Ah, aos doze anos" ou outras como "Os meus irmãos quando estão com problemas pedem-me Oh Teresa, reza aí por nós, mas, oh, eu tenho mais que fazer" e "Esta vida não é uma cantiga, sabia? Não veem para religiosas só as pasmadinhas!"

Na Maxixe, comprámos também ingredientes para fazer bolo de iogurte em quantidade para mais de 80 crianças e para as titias. A tarde foi passada, consequentemente, na cozinha, na companhia das Irmãs, a labutar, conversar e trocar receitas. Como só cabia um bolo de cada vez no forno a gás e fizemos quatro, houve tempo para tudo. São estes momentos que tenho a certeza que vou levar comigo, quando já parece que as nossas tardes nunca foram diferentes disto, talvez por semelhança aquelas passadas com a minha mãe e avó.

Um dos bolos que fizemos foi de chocolate, para trazer aos Freis e à Dona Rosária, que desapareceu todo no fim do jantar! Aí, ouvimos mais mil e uma histórias vivamente encenadas por parte do Frei Filipe, bebemos a dose certa de preta (a melhor prevenção para a malária!), lamentámos deixar "os fradinhos pobrinhos outra vez sozinhos" (nas palavras dos próprios), e trocámos lembranças preparadas com a maior imaginação possível. Para acabar, também em beleza, faltou a electricidade, que funciona como os telemóveis, recarregando-se, e tivemos um fim de noite à luz das velas.

Moçambique #28


14-05-2012

Já ando a guardar uma "mental picture" o melhor que posso, como diz uma música, dos meninos da escolinha. Com abracinhos apertados e desajeitados deles, as conversas muito vivas mas sem nexo, os olhares tímidos a pedir colo e miminhos, o irem ao quadro sem fazerem ideia do que lá estao a fazer, o bom-dia gritado, a constante partilha de bolachas, de pão, sumo e, consequentemente, haver sempre algum doente, o quanto se conseguem entreter com ramos de árvore, bichos, latas usadas e os nossos cabelos...
Hoje tentei que, a partir das historinhas que eles costumam contar, escrevêssemos uma grande no quadro, com um mínimo de lógica entre as frases. Não sei se perceberam o que era para fazer mas eu ia pegando em bocados das historinhas deles e juntava para compôr a maior. "Era uma vez, um macaco, que foi no mercado, que roubou banana, laranja, pipoca, arroz" é sempre um hit mas a minha personagem favorita tem que ser um tal de "pato-patola".

Sinto-me muito mimada nestes últimos dias! Tivemos já um presente dos miúdos, que o entregaram a cantar, não podia ter sido mais querido. Já o tínhamos escolhido com a Irmã Teresa, eu adorei uma peneira colorida, típica, claro, feita com folha de coqueiro. As Irmãs também fizeram questão de nos oferecer uma capolana linda e de um tecido óptimo acompanhado dum postal com uma mensagem que aquece qualquer coração. Esta malta trata-nos demasiado bem.

Sendo segunda-feira, o hospital estava muito movimentado, mais ainda sem a Irmã Adriana lá. Adiantámos muito na parte das consultas, a pesar bebés, fazer as suas fichas e das mamãs, a medir e ouvir barrigas e, a tão necessária mas entediante tarefa, de fazer saquinhos de comprimidos.

O serão foi passado à conversa com o Frei Filipe. Uma lição reforçada hoje foi a dos ritos de iniciação por que costumavam passar os meninos e meninas para se tornarem homens e mulheres, respectivamente. O Frei chegou a fazer isso, ainda se faz, e teve que estar 45 dias no mato, longe de tudo e todos, com circuncisão e actividades muito pouco higiénicas incluídas. Lá, eram ensinados a comportar-se em comunidade, a saber como enterrar um falecido, a tratar do lar, e aí se tornavam adultos. Claro que isso criava um excesso de natalidade, quando libertavam os recentes homens e mulheres depois desses dias todos a serem incitados a constituir logo família, mesmo tendo 13 anos!

Deve-se imaginar o Frei Filipe como um homem de metro e oitenta, com uma barriga quase de meio metro, mais negro é impossível, e com umas mãos enormes sendo depois o ser mais querido à face da terra, que o que mais gosta no mundo é das suas plantas e do seu jardim. Hoje ele dizia, com uma expressão seriíssima, que o que curava tudo era o nosso próprio chichi. Que o bispo lhe tinha dito, quando ele estava mal de dentes, que bochechasse o dito logo de manhã, que era o mais potente e eficaz, e ele jura que nunca mais lhe doeram! Também serve misturado com areia para sugar o veneno duma picada de cobra e que é tudo preconceito, não dá náuseas nenhumas, mesmo engolindo! O que eu me rio. Até com a maior das desgraças, eles cá em casa adoram rir-se a alto e bom som, deve ser algum modo de lidar com o sofrimento que parece resultar. Um exemplo muito concreto: no tempo da guerra, houve aqui um senhor a quem ceifaram aquilo que faz dele um homem à catanada e que "ficou sem nada!". Nós, tentamos ficar com um ar muito sério, e eles desatam a rir a dizer que, desde então, o senhor decidiu que mais valia andar de saias e ser mulher. Hoje, ele passou cá por casa ao jantar e chamaram-no a dizer "Meninas, este aqui é o tal Savana, o homem que anda de saias!" e continuaram a rir-se todos, Savana incluída/o!

Moçambique #27


13-05-2012

Domingo + dia 13 de Maio + Paróquia de Nossa Senhora de Fátima de Jangamo + festa moçambicana = bomba explosiva!

O dia não começou de feição com a mota do Frei Anselmo a expelir a câmara de ar para a berma da estrada e o nosso companheiro Land Cruiser ficar sem pneu, na madrugada mais importante do ano para a paróquia. Mas o que tem que ser tem muita força e, como diz o Frei Anselmo, ele nunca está atrasado para a missa porque esta não começa sem ele. Assim, um atraso de 45 minutos é irrelevante. As zonas aqui perto estavam todas presentes, para além dos músicos e instrumentos habituais havia três guitarristas e um sistema de som eléctrico, já que a missa era ao ar livre para umas quatrocentas pessoas. Os cânticos já não me saiem da cabeça e ando a aprender os passos de dança que as "manas" mais gostam - com missa de três horas dá tempo para isto e muito mais. Hoje até o Frei Anselmo dançou enquanto fazia a homilía! A seguir, houve almoço oferecido e preparado com muita dedicação e tempo pela comunidade, com direito a carapau, caril de amendoim, arroz, xima, guisado de galinha, frango no churrasco, batatas fritas, salada russa, salada de repolho, laranjas e papaia. A mesa não podia estar mais completa com todas as Irmãs, Freis, animadores e coordenadores da comunidade, mamãs e papás.

Na hora do descanso, a Sofia e a Joana finalmente gravaram os cds para a Irmã que não podia ter ficado mais contente. Eu aproveitei para dormir e preparar-me para a nossa rave de despedida. Começámos logo às quinze, como eles dizem, para só acabar às dezanove e trinta! Cozinhámos para 15 pessoas, e ainda sobrou muita comida. A ementa, típica dum jantar de amigos lisboeta: pão torrado com pasta de atum, esparguete à bolonhesa, cheesecake e bolo de iogurte. Tudo feito com muito amor, como mandam as melhores receitas e muito saboroso! Ficámos muito felizes que tivesse saído tudo como queríamos, é uma maneira simples de tentar agradecer tudo o que têm feito por nós. E deu para matar o desejo de comida mais europeia!

Mas, para mim, o melhor estava reservado para o fim. As aspirantes e a Irmã Arminda tinham preparado um show para o final do jantar, com chapéus de palha e batuque incluídos. Cantaram músicas sobre missionárias, de despedida, para dançarmos todos, em guitonga, e outras inventaram e escreveram letras a gozar com a maneira como nós pilamos a mandioca, por exemplo (parecemos umas velhas com artroses enquanto elas fazem tremer o chão e abrem um buraco na terra, tal é a força). É esta alegria que é contagiante e todo o cansaço que se fazia sentir foi posto para trás das costas e renovado a cada bater de palmas.

O Frei Filipe discursou em tom emotivo sobre a nossa estadia cá mas, a meu ver e sem falsas modéstias, quase demasiado bondoso. Agradece muito o termos vindo visitá-los, trabalhado cá, que depende das nossas notícias receberem outras missionárias e até pede desculpa por tudo o que tenha corrido menos bem, enquanto sei que eu é nunca vou conseguir retribuir os braços abertos com que nos acolheram e o que nos deram, privando-se eles de determinadas coisas. Nas palavras dele, "o moçambicano alegra-se em dar e, mesmo na pobreza, dá a sua alegria!". Que este espírito se conserve e, como lhe disse a ele, que eu possa levar metade desse espírito comigo, já vai fazer toda a diferença. Vou, com certeza, anunciar a todos os interessados que este local é um lar mesmo tão longe do berço, que as suas pessoas são trabalhadoras incansáveis e que só pretendem o bem-estar das que as rodeiam sacrificando o seu querer, e que nunca lhes falta um sorriso tranquilo e genuíno.

Bem hajam.

Moçambique #26


12-05-2012

Saímos logo às sete e meia para fazer as compras para o jantar de amanhã. Pode parecer cedo a quem ainda se deixe iludir pelo ritmo moçambicano.

Só precisávamos de ir trocar dinheiro e a uma loja com muita variedade na Maxixe, a Tauros, para comprar os ingredientes. Mas uma manhã de Sábado com o Frei Filipe claro que tinha de incluir uma paragem para um segundo mata-bicho e conhecer a casa da Dona Rosária, ir à loja de tintas, visitar uma casa de Irmãs para trazer umas flores para o jardim, visitar outras Irmãs para trazer outro tipo de flores para o jardim... e depois sim, compras durante uma hora e nisto são horas de almoço. Conseguimos tudo o que era preciso, até uma mozzarela rija e queijo-creme! A carne picada vai ser de hambúrgueres esmagados e, e!

Ao fim da tarde, o começo das festas de Nossa Senhora, com uma missa e uma procissão muito sentidas. Fomos, já escuro e de velas em mão, pela estrada até ao hospital e voltámos, a rezar o terço em português e guitonga, intercalados, e a cantar. Com este céu abismal e as músicas que se costumam cantar em Fátima, pode-se dizer que foi, no mínimo, inesquecível.

Moçambique #24


10-05-2012 #24

A nossa partida foi adiada para daqui a uma semana. Hoje já era para levarmos os presentes de despedida aos miúdos mas parece que ainda é cedo. O Frei Abel, que nos iria receber em Homoíne, teve que ir a Maputo e o Frei Viegas, o responsável da missão, está em Portugal. É da maneira que temos mais tempo para preparar o nosso jantarinho farewell que prevemos ser de tostas com pasta de atum, esparguete à bolonhesa, cheesecake e bolo de iogurte. Com o tempo que tudo costuma demorar, é bom que o vamos já fazendo.

O dia foi já o habitual, se é que isto se pode dizer. Na escolinha, levei uns recortes duma revista para eles colarem na folha e desenharem à volta qualquer coisa que tivesse a ver com a imagem. Só um ou outro é que o fizeram, é difícil tentar passar a mensagem, a não ser que digamos exactamente o que é preciso fazer. Uns decidiram pintar tudo à volta da imagem duma só cor, outros fazer uma arte mais abstracta, e outros decidiram ainda desenhar carros, bananas e os seus items de eleição. Numa expressão que eles próprios usam "Saiu errado porque esse aí depressou!".

O hospital estava literalmente vazio, logo à uma da tarde, foi fenómeno do Entroncamento. Por isso, bota em cima mais três horas de embalar comprimidos e fazer pensos.

A Irmã continua sem dormir por causa do vídeo dos 50 anos, que teima em não reproduzir a música durante a apresentação, mas ainda não desistimos de a fazer feliz. Hoje também nos veio mostrar três capolanas lindas, dizendo que seria o nosso presente de despedida mas queria ter a certeza que nós gostávamos e se era preciso ir trocar! Mas que não contássemos nada às outras Irmãs.

Cá por casa, escrevemos um e-mail ao Frei Vítor, ajudámos os Freis a fazer uns cadernos de cânticos, lemos, vimos DVD's sobre a vida selvagem e danças tradicionais com o Frei Filipe, e provámos mais uma especialidade local, a Xiquinha. É uma espécie de migas mas com mandioca cozida, amendoim e cacana - umas folhas selvagens de sabor parecido com espinafre mas dez vezes mais amargas e que ficam a fazer-se sentir no fundo da boca ainda por mais cinco minutos a seguir a serem comidas!

É assim, a vida no campo.

Moçambique #23


09-05-12

Já está tudo preparado para a semi-despedida amanhã dos miúdos, em que vamos entregar os saquinhos-presente. Hoje deixei uma dedicatória muito simples a cada um no seu caderninho. Pergunto-me se vou ver algum deles mais alguma vez ou ter qualquer notícia? Não que isso provoque em mim qualquer sentimento negativo, já sabia que assim o era, estou apenas curiosa...

Os Freis queriam muito que visitássemos a missão em Mucumbi, a duas horas daqui que, para eles, não é nada longe. Apesar de ser a última semana aqui em Jangamo e querer estar o máximo de tempo por estas bandas, gostei muito de lá ir. Uma hora até Inharrime e meter depois uns 40 quilómetros para dentro do mato, em estradas (ainda) mais acidentadas que o habitual, que equivale a mais sessenta minutos de solavancos. Desta vez, com quatro pessoas atrás! Lá chegados, a entrada é triunfal com um caminho comprido ladeado por coqueiros gigantes em linha recta e, ao fundo, a igreja em branco e azul, imaculada. As fotografias falarão melhor.

É uma missão de início do século passado, afastada de tudo e todos, mas que conseguiu agregar uma mini-comunidade. É composta por uma escola secundária, maternidade, clínica de saúde, refeitório e alojamento para os que lá trabalham e para os estudantes. Está bem conservada e tem muitos alunos, tendo retomado actividade a seguir à guerra civil.

Eu percebo que os Freis nos queiram dar a conhecer outros sítios aqui à volta. Eles sentem que as outras missões são apenas mais divisões, que também merecem atenção, de uma enorme casa que são os Franciscanos em Moçambique. É muito interessante para nós e cada missão sente que não está esquecida, que há uma posssibilidade de espalharmos mensagem e vir mais gente para ajudar. Este era mesmo um sítio isolado mas que deve proporcionar uma experiência inesquecível com tanto trabalho concentrado, com o mato e o rio Inharrime à vista.

Que o Frei Filipe é inseparável da sua moringa, a planta seca que "faz bem a tudo", já nós sabíamos. Desconhecíamos era o seu grau de conhecimento e fé em tudo o que é medicina natural. Hoje ouvimos falar de outros pózinhos milagrosos que ele insiste que experimentemos. Passando a citar: moringa é obrigatório levarmos, podemos apanhar aqui na vizinha e secar ou comprar na farmácia quando formos ao Chimoio; Aloé, uma mistura de mel com folhas de aloé que ele jura que umas Irmãs usaram numa senhora com sida e que ela ficou curada e que a nós também há-de fazer bem; e Ngoka, umas saquetas que se importam da Tanzânia e que curam mais de cem doenças, cancros incluídos - tomou quando tinha problemas de tensão e "ficou sem ela"; e quando estava com grau um de hemorróidas e os médicos disseram que devia esperar até ao grau três para ser operado mas tomou Ngoka e já não tinha mais a dita cuja. Isto tudo à mesa, entre muita risada, mas a promessa que íamos tomar pelo menos um deles. À noite, mostrou-nos um livro intitulado "A farmácia natural" escrito por uma Irmã e que, resumindo, também tem cura para tudo. Vou fotocopiar, mal não há-de fazer.

A vastidão desta terra, as nuvens perfeitas e o tamanho das copas das árvores ainda não deixaram de me impressionar.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Moçambique #22


08-05-12

Falta inspiração para escrever, essa que é necessária mesmo para o mais simples dos parágrafos...

A nossa breve partida já é tema de conversa e planeiam-se jantares de despedida, lembranças para quem nos acolheu e troca de contactos. Há uma urgência de querer estar, saber, fazer, escutar, olhar e memorizar.

Na escolinha, monopolizei a manhã para fazer a tal ficha com os dados dos miúdos e deixar à turma. É moroso e exige paciência perguntar a 36 miúdos entre os 4 e 5 anos, a idade, comida e cor preferidas, o que querem ser quando forem grandes e a que é que gostam mais de brincar, para além de os ir mantendo entretidos enquanto se vai ao lado de cada um, tentar arrancar as respostas. Isto em pouco mais de uma hora. Lá conseguimos, eu e a titia, e eles iam desenhando o contorno da mão na folha e pintando-a. As respostas, muitas eram dependentes das opções que eu dava. Por exemplo, como quase sempre recebia um silêncio quando perguntava o que querem ser quando crescerem, dizia que podiam ser médicos, enfermeiros, motoristas, polícias, professores, ter um café, e a resposta tendia para a última opção que eu mencionava. Excepção foi um que queria ser bandido e outro papá. Amoroso, não?

Outras vezes, independentemente do que eu perguntava, a resposta era ‘feijão’ e ‘matapa’. Suor e lágrimas à parte, o resultado foi satisfatório. Só falta mesmo fazer um retrato a cada um e deixar a impressão digital na ficha.

A saga das bodas de ouro da Irmã continua. Os ficheiros da pen voltaram a desaparecer mas lá conseguimos improvisar e acabar o vídeo. A saga continua porque agora é preciso passá-lo para cds que a Irmã quer distribuir em Portugal. Trinta e três. De vez em quando é que tomamos verdadeiramente atenção aquilo que estamos a fazer e nos rimos com as frases poéticas da Irmã acompanhadas de fotografias a condizer, tais como ‘Programar e planificar é o contributo para uma vida organizada’ e a Irmã em frente a um ecrã de computador com o desktop do Santo António.

Eu e a Sofia demos um saltinho ao hospital e a Joana ficou em casa à espera duma entrevista telefónica com a ESADE. Telefonaram-lhe só mais tarde, quando estávamos a sair do chapa, um ruído imenso na vila e ela ainda ofegante, mas tudo correu de feição e ela conseguiu entrar logo no mestrado que queria! Tenho a certeza que a emoção da banda sonora moçambicana ajudou.

Ao fim do dia, veio visitar-nos, mais uma vez, a Dona Rosária, que vem amanhã­ connosco a uma comunidade remota aqui relativamente perto. As histórias que ela e o Frei Filipe contaram do tempo da guerra... não devem sequer ser comentadas. Não há palavras. De monstruosidade humana, de tortura... Ou se estava com a Frelimo e contra a Renamo ou vice-versa, não havia inocentes aos olhos dos fanáticos. Isso criou um banho de sangue, maioritariamente no campo, toda a gente fugiu para a cidade. Imaginar que, a estrada que fazemos todos os dias num quarto de hora para escolinha, era caminho para uma morte certa... Ninguém podia circular, as comunicações foram todas cortadas, esta missão estava abandonada e a degradar-se, familiares e amigos esventrados e queimados... Durante desasseis anos.

É ouvir isto que me suga energia e inspiração.