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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Moçambique #43


29-05-2012

Marcámos com o professor de carpintaria ir assistir à aula dele, nada. Com o director pedagógico da escola secundária para ir à internet, nada. Seria isto que me daria em doida se eu quisesse viver aqui durante mais tempo. Fomos à nossa vidinha, e demos aula de Informática ao 2º ano. Eles agora já sabem mexer no Word e no Paint, mas como têm tão poucas horas de prática, demoram muito tempo a fazer tudo. Decidimos não ensinar nada de novo, apenas deixá-los explorar estes dois programas e deixar que ganhem mão com eles.

O professor de carpintaria lá apareceu, perguntando se nós tínhamos chegado cedo (...) mas redimiu-se ao mostrar um mapa de Moçambique que lhe pedimos para aprender a fazer, mas que logo ele começou sozinho. Disse que ía fazer os outros dois para nos oferecer. Fico toda contente mas lá para ele deve pensar "estas três, coitadinhas, a acharem que chegam aqui e conseguem fazer logo isto". Insistimos que queríamos aprender a fazer taus, pelo menos, e isso ele disse que podíamos vir amanhã.

Às 13:00, outra aula em frente ao computador, desta vez com o 3º ano. Aconselhámos a começar com o Excel que eles vão acabar por dar este semestre. Claro que cada um terá direito, no total, a não mais de duas horas quando acabar o ano por isso é melhor avançar já! Tentei explicar duma maneira que não se tornasse chata e eles pareceram gostar. Fizemos uma tabela, como é que o programa reconhece sequências e reproduz fórmulas, as operações matemáticas com células e eles perceberam que lhes podia dar muito jeito na escola. O Bresneves até veio, mais tarde, dizer que tinha andado a praticar no computador cá de casa!

De tarde, dois jogos de basquete com os alunos para dar energia para uma aula de matemática logo de seguida! Estivemos a dar fracções, como é que se fazem as operações todas e eles até não estiveram mal, com tudo o que tenho ouvido de chumbos a esta disciplina. Hoje ouvi um a dizer que preferia ter aulas com outra que não eu. Fiquei a matutar qual será a razão e, sinceramente, acho que é por eu não andar muito nos tempos livres com eles e por ser exigente quando estou a dar aulas. Vou tentar relacionar-me mais com eles para não criar nenhuma barreira com mais nenhum mas também preciso de tempo para mim, tempo para estar sozinha e em silêncio, não sou nenhuma santa nem tenho prentensões de tal. Gosto muito da companhia deles mas também gosto da minha para poder ser equilibrada.

Mais ainda, quando todas as novidades que chegam agora a nós são de fofoquice nomeadamente, cada um/a ter no mínimo quatro namorados/as ao mesmo tempo, andar com quem não devia e outras ceninhas que nem aqui podem ser escritas com receio que caia nas mãos erradas e a escola, sem exageros, desabe.
Hoje ligou-me mais uma vez a Avó Isabel, soube-me muito bem falar com ela, tenho saudades da minha família. Vou mandar umas mensagens aos meus primos só para encurtar, hoje, a distância, um bocadinho.

Moçambique #42


28-05-2012

Sinto-me num meio familiar e a viver com um horário que não poderia ser diferente, mesmo tendo só passado uma semana destas jiga-jogas que fazemos. A paciência e o auto-controlo continuam a ser postos à prova a cada hora com o convívio permanente, a falta de espaço para nos refugiarmos e de silêncio - que eu tanto preciso - e o cansaço. Nada que não consiga ser gerido quando se trabalha para uma causa maior.

Tínhamos programado ir à internet na escola secundária aqui ao lado, já que a Lina dizia que era só levar o bilhete de identidade e entrar na sala de informática. Já nos tornámos algo cépticas em tudo o que envolva facilidades por estas bandas. Dito e feito. No caminho, encontrámos a turma de 2º ano de carpintaria especada em frente à sala de computadores afirmando que tínhamos aula com eles. Toca de ligar ao professor de informática quem, na verdade, lhes ia dar aula, e estava ele a vir de Maputo. Não os íamos deixar ali a olhar para o ar, mais uma aula enfiada no nosso horário. Depois de encontrarmos a escola secundária, o professor de informática não sabia onde estavam as pens ou se funcionavam, temos que falar com o director pedagógico, que agora está em reunião, "é só fazerem um compasso de espera". Moving on.

Teoricamente, os alunos nunca têm tempo livre durante todo o dia, a não ser para almoçar, mas não é raro encontrá-los a vaguear por variadíssimas razões. A meio da manhã, estavam uns assim, porque alguns professores não tinham acabado a reunião na semana passada e retomaram hoje. Siga uma aula de Francês improvisada, para uns 20, que foi de uma hora e já não foi mau, bem que puxei pela cabeça. Demos os números, conversação básica, enfatizei a pronúncia com todas as minhas limitações e ensinei as cores excepto o amarelo, que não me lembrava.

Chegamos a casa para almoçar e somos presenteadas com a feliz notícia que a cozinheira não tinha vindo, isto ao meio dia, com aula daí a uma hora e numa cozinha moçambicana franciscana (o que faz toda a diferença). A minha mãezinha já tinha dito que não podíamos sair de cá sem comer mandioca frita e foi isso que tentámos fazer. Cortada às rodelas com sal e ketchup, acompanhada com um ovo estrelado e pão, foi o nosso almoço a imitar fast food. Bem bom para desenjoar, há mesmo males que veem por bem!

Depois de mais uma aula de informática patrocinada pelo primeiro Redbull aqui (e que o meu irmão ficaria orgulhoso em como consigo pôr a funcionar 6 computadores ao mesmo tempo numa sala a meia luz e com cabos a saírem por todo o lado) a minha imunidade à cafeína é maior e e consigo refugiar-me num dos muitos quartos desta casa e "sonecar". Adoro ir para lá, o quarto cheira exactamente à casa de Quiaios, e não há sítio melhor para recuperar energias.

Sai mais uma batelada de panfletos a avisar as aulas desta semana e uma aula de português. Não me canso destas últimas, podia dá-las o tempo todo. No fim, tivemos um tempinho para conversar e os alunos estavam muito curiosos em relação à nossa vinda para cá, se era algum estágio, se depois iríamos reportar o que tínhamos visto cá, o que é que fazíamos e faríamos em Portugal, se há algum sítio por lá sem electricidade ou pobre... Gostei muito de lhes falar da minha vida, pois é mesmo uma realidade que eles não conhecem. Tentei explicar que ter 200 euros na Índia era muito diferente de os ter em Portugal ou em Moçambique, que havia zonas ricas e pobres em Portugal mas quase todas com electricidade, que éramos considerados pobres para a Europa mas mais desenvolvidos que Moçambique apesar desta pobreza ser relativa porque qualquer pessoa aqui consegue sobreviver já que o que não falta é terreno fértil e sol para plantar e depois comer. Pouco ou nada sabem sobre o nosso país, só aprenderam os reis e História da qual já nada se lembram.

Temos andado a matutar qual será, antes de qualquer solução, o verdadeiro problema das zonas que temos conhecido. Eu penso que nós é que vimos dos tais 1% e que o resto do mundo não é assim nem podemos esperar que o seja. Não podemos trazer para aqui os nossos padrões e sonhar que alguns alunos saiam daqui para ir ter uma carreira de sucesso ou serem génios numa qualquer área importante. Muitos destes alunos vivem em condições que, se fôssemos nós, a última coisa que queríamos era estudar, com pais analfabetos e, a meu ver a parte crucial, com um sistema de ensino que pouco os motiva ou lhes serve.
Temos que ser realistas e não podemos achar que algum benefício virá quando um aluno tem uma aula de biologia por semana e tem 20 disciplinas diferentes. Acho que se eles se querem especializar, como o fazem no ensino técnico, que fiquem, pelo menos, a saber muito bem as disciplinas que lhes vão ser úteis. Não é por terem 30 aulas de filosofia ou química na vida que vão ficar mais iluminados nem sequer se vão lembrar delas. Sejamos práticos e, se eles quiserem saber mais sobre essas áreas, podem sempre pesquisar, estudar e interessar-se por vontade própria, que é como se aprende melhor. Mas calculo que nada disto seja politicamente correcto, que lhes devem ser abertas todas as portas e áreas do conhecimento. Tenho muita pena, mas isso não funciona. Ficam apenas a saber nada de tudo e o potencial dos miúdos está lá todo.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Moçambique #41


27-05-2012


Acordei tarde, às 7:00, e queria um Domingo relaxado, como eles devem ser, e consegui. Só faltou mesmo ovos mexidos e iogurte, os desejos de hoje para uma manhã perfeita.

Relembrando os fins-de-semana intermináveis em Lamas, pus-me a vasculhar as cassetes que os Freis cá têm. Tal como em Jangamo, 98% são filmes de pancada pura ou então de teor beato. Eu ando à cata dos 2%. Encontrei um realizado pelo Riddley Scott, com o Gérard Depardieu sobre o Cristóvão Colombo que mais que se enquadrava nos critérios, já de si, pouco exigentes.

Assistimos à final do torneio dos rapazes, entre o 2º e o 1º ano. Contra todas as probabilidades, mas com toda a justiça, ganharam os mais novos, num jogo emocionante de ver. Uns mais bruta-montes que chutam a bola para qualquer parte do campo, outros com a técnica toda e ainda uns que têm medo de partir as pernas e tornam tudo mais divertido. Para além de uma das equipas estar com o equipamento do Arsenal/oficial-da-escola vestido, mas sem chuteiras, e alguns terem apenas um ténis e uma meia num pé, partilhando o "extra" com algum que chutasse com o pé contrário ao deles. Distribuímos depois os prémios aos vencedores.

Às meninas oferecemos um verniz, uma caneta e um caderno e a eles os últimos dois e uma bola de plástico pequena. Achei piada ao facto de vir um jornalista da rádio local cobrir o evento e referir-se a nós como "as patrocinadoras".

Surpreendentemente, muito se queixaram os que tinham perdido por não terem prémio de consolação e "terem jogado para nada". Nós temos que manter a calma e não, simplesmente, virar costas e ignorar, menos ainda puxar do chinelo e mão na anca. Fizemos o nosso papel dizendo que o importante é jogar e eles ainda vieram com a conversa que para a próxima não se inscreviam. Também há miúdos mimados aqui, nunca me iludi a pensar que são só meninos puros, queridos e de sorriso na cara. Não estamos noutro planeta, só noutro continente.

Um deles dizia-me que "moçambicano não pode ver o irmão bonito ou rico". Não sei se é tão extremo ou é simplesmente um mal mundial e intríseco à raça humana.

Moçambique #40


26-05-2012

Chega o fim-de-semana mas, estando nós no local de "trabalho", isso não quer dizer nada. Continuam as actividades, as aulas, acrescentadas ao trabalho pastoral do Frei, a quem acompanhamos.

A chuva pregou-nos uma partida aquando do torneio de futebol masculino e feminino mas nós pregámos-lhe outra logo de seguida já que começou tudo atrasado e, no momento em que se dava início ao primeiro jogo, parou de chover. As balizas são os esqueletos de metal, que devem ter sido feitas cá, e o campo de terra batida. Ténis nem vê-los, quanto mais chuteiras. Nada que impeça os rapazes de jogarem que nem homens grandes e darem um bom espectáculo! Nas palavras duma aluna, ao comentar o que nós chamamos "carga de ombro": "Eh, esse mete muito punho. Aplicou xima e feijão!". A bola que comprámos no chinês, as únicas em toda a cidade da Maxixe, começou a dar de si com os primeiros chutos...

As nossas meninas falam, falam, falam, falam mas no fim... Estavam muito indignadas porque queriam que os rapazes vissem o jogo delas, queriam escolher a equipa, o campo, não queriam jogar ao sol, tudo para depois não conseguirem, nenhuma delas, acertar sequer na bola. Bola essa que já era chamada de "papaia" pois estava-se a transformar numa elipse dada a qualidade excelente do material que a revestia. Deu para nos rirmos muito.

Nas bancadas, visitou-nos uma tarântula e põem-se fofocas em dia. Já começámos a conhecê-los um a um e, com isso, inevitavelmente, os dramas novelescos. São todos muito dados às demonstrações de afecto. Por exemplo, a professora de Educação Física anda de mão dada com os colegas professores mas tem namorado em Maputo tal como é normalíssimo dois rapazes entrelaçarem mãos quando passam no corredor a caminho das aulas ou andarem rapazes e raparigas todos abraçados, um diferente cada dia.

Já sabíamos que o Frei Evódeo vinha fazer uma visita ao almoço mas também tivemos a agradável surpresa de ver o Frei Filipe. Parece que deixámos Jangamo há já tanto tempo, sem falar da nossa estadia em Maputo, que parece ter sido noutra vida. Foi muito bom conversar com eles e melhor saber que eles estão sempre preocupados connosco e disponíveis para qualquer eventualidade. Alterámos os planos de viagem, prolongando, por vontade nossa, a estadia cá em Homoíne, de maneira a que consigamos fazer as aulas todas com os temas que queremos, sem andarmos que nem galinhas doidas e a encavalitar tudo.

Os do primeiro ano, que nunca tinham tocado num computador até ontem, quiserem mais uma aula de informática e assim foi. Desta vez de uma hora e meia e continuámos a mostrar-lhes as funcionalidades básicas do Word e, sempre a excitação total, do Paint.

Eu queria descansar nestes dias, estava a sofrer por antecipação por termos a vigília de Pentecostes hoje, das 17:00 às 22:00, no mínimo, pois o Frei Viegas fica lá até amanhecer. As minhas preces foram ouvidas e, o Frei Abel, que nos levaria, não percebeu que nós estávamos a dar aula até às 17:00 e foi-se embora minutos antes de nós sairmos. Que alívio, sinceramente. Acho que tinha passado mesmo mal se tivesse ido.
Assim sendo, ficámos no convívio com os cá de casa, introduzimos a Lina ao fenómeno Harry Potter em VHS e a Joana esteve a traduzir os poemas românticos de um dos rapazes do internato, o Fernando, para Inglês. São uma pérola...

Moçambique #39


25-05-2012


Os dias não páram para nos ver trabalhar e as horas parecem sempre curtas. Um dia comporta uma imensidão de actividades que, em casa, nos ocupariam por uma semana.

O professor Campião, director do internato, também está a tirar o curso de Economia Agrária à distância, então dava-lhe muito jeito saber introduzir tabelas e fórmulas básicas no Excel e conceitos como o custo marginal, por exemplo. Os alunos do primeiro ano, nosso 8º, nunca tinham sequer tocado num computador e foi uma delícia ver os olhos deles brilharem quando criavam pastas no ambiente de trabalho e pintavam o nome com uma cor, no Word. Para contrariar a sentença de que santos da casa não fazem milagres, introduzi a Lina - sobrinha do Frei Viegas e estudante na escola secundária da 10ª classe - a Francês, com todas as minhas limitações mas boa vontade. Na aula de apoio de Português, cobri a matéria que ainda não tinham dado, dos determinantes artigos definidos e indefinidos e dos possessivos, para além de tirar dúvidas existenciais, tais como o significado das palavras "óbvio", "gaiatice" e "catrapiscar". É muito recompensador quando eles veem à biblioteca ou nos encontram no corredor e exigem que haja mais aulas de qualquer que seja a disciplina, matéria ou hora!

Houve também lugar para aprender e observar alguns na aula de carpintaria, a fazer cómodas e portas de armário, e ficou a promessa de que, na próxima semana, nos ensinariam a fazer taus e pendentes do mapa de Moçambique! O professor Nilton também avisou que a Internet no telemóvel era muito barata, ao contrário do habitual, e descobri que a minha bomba tecnológica consegue abrir o Facebook, quem diria! O e-mail é que já é outra conversa.

Infelizmente, nem tudo são rosas e o corpo já pede descanso. Não sei se por ser 6ª feira, mas na aula da noite, quando me levantei de repente comecei a ficar muito zonza e mantive-me sentada o resto do tempo. Amanhã obedeço e tenho que arranjar tempo para descansar.

Moçambique #38


24-05-2012


Há-de chegar a altura em que já nem para escrever tenho tempo. É bom sinal.

Hoje foi quase um desses dias, o que se traduz na sensação de já estar cá há muito mais do que, na realidade, estou.

O nosso horário é das 6 e pouco até às 10 e tal, com intervalos para comer. Acordo sempre a pensar "É hoje que tenho malária, de certeza, já me está a doer o corpo!". Mas logo me espreguiço e passa. Hoje mais ainda, que atacou o ácido láctico resultante do jogo de basquete...

Começámos com reunião de professores da qual, felizmente, fomos dispensadas depois de apresentarmos os nossos projectos. Felizmente porque também aqui têm tendência para se arrastar para lá do suportável, pelas horas a que saíram todos de lá.

Fomos então às velhinhas, fazer companhia, conversar... Levámos um livro de fotografias que uma portuguesa que cá esteve fez sobre elas e enviou, levámos um caixote de roupa que estava em casa dos frades para escolherem uma peça cada e ainda aprendemos umas palavras de xitsua através da vovó Aulina, a única que fala português.

Depois da hora de almoço, aula de informática ao 3º ano. O professor disse que nos entregava a chave da sala mas, como não apareceu, trouxémos os 12 alunos para a sala em casa dos frades onde existe um único computador, mais o portátil sobrevivente da Joana. Sala essa que o Frei nos disponibilizou com muita hesitação, afirmando que os miúdos decoram quais as  janelas que estão partidas, invadem a casa, e vêm roubar - toda esta conversa em frente deles. Comecei a encher o saco, tem a mania de se sair com estas... Os miúdos adoraram, mesmo assim, e ficaram fas-ci-na-dos com o Paint. Improviso que resultou!

Combinámos ir com o Frei à Maxixe para comprar bolas para o torneio de futebol que estamos a organizar este fim-de-semana. Eu já estava com pouca paciência para o ouvir, pois vinha contrariado e com pressa, por ter uma reunião às 18:00, quatro horas depois, para ir a um sítio que dista meia! Os saltos do carro numa estrada ainda mais acidentada que o standard moçambicano tornava tudo pior. Demorámos, no máximo, 15 minutos numa loja para comprar os prémios do torneio e outros 15 nos chineses para comprar a bola, e o homem só bufava, dizendo para nos despacharmos. Estivemos o resto do tempo a comprar cimento e a tratar doutros assuntos de Sua Excelência, no meio de mercados loucos e a cheirar a peixe que nem um chapa a caminho de Cumbana. Eu não digo nada e penso sempre que a minha via para a santificação é através dele. À vinda, passámos pela baía, onde o cheiro a mar e a lembrança de férias de Verão passadas, me deu um ânimo tão oportuno.

Assim, chegámos atrasadas à aula que tínhamos às 17:15, mas avisámos, e ainda apareceram uns quantos alunos. Todas as frustrações são imediatamente esquecidas quando tenho uma dúzia de adolescentes ávidos em saber o que vai sair da minha boca e da ponta do pau de giz. Tudo o resto desaparece e o tempo pára. Revimos as preposições, fizemos exercícios, funções sintácticas das frases, distinção entre palavras parecidas e recordei estar no lugar deles e adorar estas matérias. Duplo gozo me deu estar agora do outro lado. Pensei, imediatamente, que vou ter muitas saudades disto, o que raramente me acontece.

Moçambique #37


23-05-2012

Concentração na escadaria da escola às 6:45, como deve ser em todo o colégio interno que se preze (ou o que os filmes fazem querer parecer). Hastear a bandeira nacional, cantar o hino, notícias do país e do mundo e avisos. Adorei o momento, principalmente o das notícias. Não há nada como saber, logo pela fresca que, em Maputo, sobreviveu um gato depois de o deixarem dentro duma máquina de lavar-a-roupa. Fiquei intrigada com o método de pesquisa de informação que eles utilizam mas, mais tarde, vim a saber que são sempre novidades do dia anterior. Fui logo transportada para as minhas queridas manhãs de cafézinho, torrada e jornal na mesa da cozinha em casa.

Já dizia uma sábia professora de Educação Visual que "sem trabalhar, não há trabalho". Só tínhamos que nos começar a mexer se queríamos fazer aqui alguma coisa, e foi o que aconteceu. Apresentámos os planos dos seminários todos, passamos os dias na escola disponíveis para quem precisar, e animação não falta. Houve miúdos a vir tirar dúvidas de Física, Contabilidade, Matemática e a cova começa a não ter fim, cada vez que cavamos nas matérias mais básicas… Não pode ser aceitável que se esteja a dar a distinção entre gasto e despesa ou fórmulas de física sobre energia e força quando eles não sabem multiplicar nem interpretar uma pergunta. Mais vale saberem bem o básico e é isso que estamos a tentar que aconteça. Com o tempo que sobrava andámos a fazer os panfletos para anunciar pela escola, a inscrever os alunos e tratar de tudo para o primeiro seminário, de Inglês.

Mesmo os professores interessam-se imenso por aquilo que possamos vir a ensinar, querem também aulas para eles e já começaram os requisitos. Hoje estive a ajudar o Formador Manuel, director do último ano do curso de Agro-Pecuária, nos exercícios dum curso que ele está a tirar, à distância, de Economia Agrária. É estimulante ver que ele quer saber sempre mais procurando novas maneiras de o fazer, e recordei os conceitos de elasticidade e a tão adorada curva da oferta e da procura. Quis também saber como é que podia organizar os ficheiros no computador, copiar para um cd e ler os e-mails no telemóvel! A Irmã também quis fazer um panfleto da missa para imprimir e outro professor quer uma aula de Inglês para melhorar vocabulário. Venham elas!

O seminário correu muito bem, quis que fosse tudo informal e que eles estivessem à vontade. As salas têm uma luz mais fraca que um vão de escada em Alfama e fazem um eco desgraçado, por isso o melhor mesmo é estarem todos com as carteiras juntas a um metro do quadro e a levar comigo mesmo em cima. Perguntei o que queriam aprender, o que é que já sabiam e tiveram interesse em saber como se começa uma conversa, falámos sobre as partes do corpo e peças de roupa, e alguma construções básicas de frases e preposições. Nos últimos minutos, podiam pôr as perguntas todas que quisessem: um deles começou a cantar, queria que eu traduzisse, a versão dele do “Happy Birthday”; outro cantou uma música com a letra “Happy today / Happy tomorrow / We are celebrating”; outro queria saber dizer “paz”. Interesse não falta, a minha única preocupação era mesmo que eles não quisessem saber nada, que só falassem nas aulas e fossem indisciplinados mas alunos como estes nunca vi. Sempre de olhos esbugalhados, escrevem tudo e repetem, querem aulas a todas as horas livres… já lhes disse que mesmo que me encontrem no corredor, estão à vontade para pôr qualquer questão. No fim da aula, cá fora, brincámos um bocadinho, a falar todos em Inglês, eles a “jingar” connosco com frases do género “The teacher is beautiful, é assim que se diz, não é?” mas sendo que estes são os miúdos mais queridos que existem não podemos deixar de responder “Yes, the teacher and the students are beautiful!”.