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quinta-feira, 7 de junho de 2012

Moçambique #36


22-05-2012

Os professores aqui ou têm a mesma idade que nós, ou não têm formação na matéria que estão a dar ou não têm formação de todo. É um facto, que não lhes tira crédito nenhum, antes pelo contrário, e que nos dá à-vontade para saber que o que queremos implementar e ensinar será bem recebido e trará valor acrescentado.

Assistimos à aula de Informática, com o professor aluno do curso de Geografia e História na faculdade da Maxixe, e que percebe minimamente de computadores. Estavam a trabalhar com o Publisher, que eu nunca tinha utilizado, mas que é muito instintivo e dá jeito para fazer convites, capas de livros, anúncios, entre outros. Cada um tinha que criar um modelo à escolha, mas tinha pouco tempo já que só há seis computadores para mais do triplo disto em alunos. Um dos textos que li era um que convidava as pessoas para virem à “terabia do amor, na Igreja Universal, onde achão solusão para proglemas”.

Há muito para fazer, as nossas cabeças não param de fervilhar. Seminários para preparar, anunciar, dar, torneios para organizar, estar com as velhinhas… Até encontrámos cá em casa um caixote cheio de roupa que devem ter dado aos Freis, e estava a ganhar pó, e vamos distribuir por aí. Já percebemos que como funciona aqui é propôr e avançar com o assunto, entraves há muito poucos!

Quando achava que ia descansar um pouco antes do jantar, convidam-nos para a aula de Educação Física, com a professora que também dá Biologia, que estava irreconhecível, para jogarmos basquetebol. Puseram-me logo em campo na equipa dela, cinco contra cinco, e eu que não me mexo há sei lá quantos meses, ia morrendo. Logo nos primeiros dez minutos estava a arfar, mas não queria dar parte fraca. Ao fim dos 45, já sentia os pulmões na boca. Mas valeu a pena, acabei por marcar uns cestos, e é uma óptima maneira de os conhecer,  e de eles perceberem que também cá estamos para nos divertir e conviver!

Moçambique #35


21-05-2012

A Irmã Laurinda, directora do conselho pedagógico, guiou-nos numa volta de reconhecimento pela casa das Irmãs e apresentou-nos os professores em falta. Fomos ainda conhecer a biblioteca, que eu imaginava com vários corredores, centenas de livros e que, na realidade, tinha cinco mesas e não mais de uma centena de manuais para a escola toda. Quase todos já usados por alunos portugueses e enviados para cá. Há-de nos servir, também não faz sentido a necessidade consumista da mudança dos mesmos de dois em dois ou três em três anos.

Encontrámos o Sr. Manuel, director do curso de agro-pecuária, que nos convidou logo a ir assistir à "tutoria de alternância": os alunos do terceiro ano, têm uma semana para ir investigar sobre um tema, na sua família e/ou comunidade, e apresentam depois aos professores, tipo tese. Cada uma de nós ficou com um professor, a tentar perceber o que é que eles já tinham e corrigir eventuais erros. O tema era sobre fontes de rendimento e, as pesquisadas por todos, eram provenientes das machambas e criação bovina e suína. Os erros ortográficos eram mais que muitos, já que eles escrevem como falam. Por exemplo, o "pipino" e o "distino". Mas o melhor foi uma a insistir que "couve" era "cove" por que assim se dizia. Penso que o maior obstáculo é os próprios professores pôrem perguntas com palavreado complicado, que nem os alunos percebem para entrevistar a comunidade. É preciso ajudar os professores mas, a longo prazo, quero sugerir que o programa deles seja mais simplificado e não chapa três do ensino em Portugal. Não há necessidade de eles terem 20 disciplinas, a realidade do primeiro ano, ao acumularem as gerais com as específicas do curso técnico. Ficam a saber muito pouco, não têm tempo para se dedicar a nenhuma e duvido que retenham alguma matéria.

Houve ainda tempo para conviver com a malta jovem cá de casa, jogámos Jenga enquanto tocava viola e lavámos a roupa e pusemo-la a estender, exactamente quando veio uma trovoada tropical.

Na hora do estudo obrigatório, tivemos um miúdo a perguntar como é que se chamava um vendedor de jornais, que o professor de português queria e, depois de algum tempo a pensar, ficou todo contente por lhe responder que era um ardina. Fizemos umas perguntas a dois que estudavam Geografia, os planetas e estrelas, e outros Inglês, que sabiam o equivalente ao nosso 5º ano, sensivelmente.

Já não nos vamos dar ao trabalho de continuar a contrariar os professores quando começam a assumir que somos professoras das matérias que ensinamos porque eles próprios não tiveram formação nas disciplinas que leccionam e, aquilo que nós achamos ser só saber um mínimo de algo, aqui é um tesouro.

Moçambique #34


20-05-2012


Inhampupo foi a comunidade visitada. Não muito longe daqui, com muitos buracos e lombas pelo caminho, esperava-nos um grupo de não mais de 70 pessoas no que, há nem sei quantos anos, teria sido uma escola e, por alguma razão, agora é usada como igreja. Tinham feito um caminho até ao altar delimitado por flores lilases, ao lado do qual estavam dois quadros de ardósia muito desgastados, havia umas quantas secretárias com bancos acoplados e ouvia-se e cheirava-se uma família de morcegos que por ali pairava. São construções fascinantes estas e muitas vezes perco-me a imaginar cenas ali passadas. Bem que o posso tentar fazer, devem ser dois mundos distantes, já que esta escola deve ter sido começada por portugueses e, hoje em dia, admiro-me se as pessoas que aqui moram, da minha idade, não fôr a primeira vez que vêem uma branca.

Enquanto o Frei tinha uma reunião com os papás debaixo da mangueira, nós fomos tentando meter conversa com a juventude local. Falei do que tínhamos vindo cá fazer e perguntei como era a vida por ali. Não difere muito das outras comunidades: todas as raparigas entre os 17 e 26 trabalhavam na sua machamba que dá mandioca, feijão, milho e afins. A diferença é que não havia nenhuma que tivesse um número insustentável de filhos, apenas um ou dois, que são amamentados quer se esteja nestas conversas, na missa, no chapa... É quando fôr preciso e o bebé estiver a chorar, já que chupeta é objecto ainda não avistado.

Tão díspar é o meu nível de conforto agora, ao estar nestes grupos, e nos primeiros dias. Dizendo isto, nunca sei muito bem o que inventar quando sou largada assim numa comunidade durante duas horas antes da missa e tudo o que fazem é olhar para nós e rirem-se imenso. Converso, tiro fotografias, brinco com os miúdos... convive-se.

O almoço foi lá: arroz, massa, e sopa de massa com peixe, e também já nem sequer me faz impressão pensar como terá sido preparado. À volta, passámos pela palhota duma senhora - caminho pelo qual já não devia passar um carro há bastante - que estava doente, já há três anos, e quis receber a extrema unção e confissão. Quando parámos na vila, o carro pifa, o Frei arranja-o, mas parte o capot e assim vamos sem ele de volta para casa.

À tarde, não faltou entretém, quando nos apercebemos que tínhamos deixado a única chave do quarto dentro do mesmo. O Bresneves - sobrinho do Frei Filipe e apelidado assim "por causa do russo" que suponho ser um qualquer  "Brejnev" - que cá mora e é um handy man, chamou o carpinteiro, o Manuel, colega dele na escola e tiveram mesmo que partir o vidro da janela para entrar... Tivemos depois que nos mudar para outro quarto que, entre falta de fechadura, de vidro, de rede mosquiteira ou de electricidade havia muito por onde escolher.

Soubémos por umas alunas, que todos os dias de Domingo a 5ª feira há uma hora obrigatória de estudo às 19:30 e decidimos invadi-la para saber que matérias estão a estudar e poder tirar eventuais dúvidas. Não estava à espera que logo neste primeiro dia alguém viesse, realmente, ter connosco, mas uns corajosos vieram-nos interrogar sobre os sujeitos, predicados e todos os complementos circunstanciais, a Português, que eu adorava mas que de muitos já me esqueci. E, a esta hora, não há biblioteca que nos salve, tão pouco internet, eles não têm livro individual e o professor ainda nem sequer tinha dado a matéria toda. Faz-se o que se pode, com aquilo que se tem. Eles ficaram todos contentes, com um trabalho que, de outra maneira, teria ficado quase em branco, mas que foi o máximo que conseguimos explicar, dado que o tema seguinte de estudo era sobre viveiros, canteiros, alimentação cunina e com uma inclinação mais agro-pecuária, nos quais a minha ignorância é rainha.

Moçambique #33


19-05-2012


O dia começou com uma visita à machamba em Mubalo, na qual o Frei está muito empenhado para que dê alimento!

Está sempre com ideias novas, para onde é que podem vender, como é que os miúdos da escola podem ir mais vezes para lá, e só fala dos seus negócios para trazer mais receitas para a missão. Acho que faz muitíssimo bem, não ficar à espera que tudo lhes caia nas mãos, e esta missão é enorme, não se pode dar ao luxo de ser mal gerida. A machamba está no bom caminho e nós próprias pusemos mãos à obra para aprender sobre agricultura! Reguei e tirei o capim de rebentos de cebolas - é difícil distinguir um do outro - mas ainda não capinei (o meu, mais recente, verbo favorito). Estão sempre a falar disso e ainda mais frequentemente quando mencionam castigos para os alunos. Se se portam mal, vão capinar! É basicamente revolver a terra à volta da planta com uma enxada que, neste sol, é sempre um tormento. Ao início estava cheia de energia, mas mal apareceu o sol das 9:30 põe-se-me também uma moleza que me faz compreender o ritmo alentejano... E estamos no Inverno!

O resto do dia foi livre, já que tinha sido desmarcado o programa pastoral do Frei à tarde. Estive a fazer uns resumos de filosofia para o Frei, jogámos jogos e vimos um filme, o Drive, que muito fez as nossas alegrias, de tão surpreendentemente recente que é. Todos os outros são de muita violência ou, pelo contrário, sobre Fátima, variadíssimos santos, e cassetes de vídeos caseiros.

Andávamos mal habituadas, com as comidinhas das Mamãs em Jangamo e, hoje, como ficámos todo o dia em casa, não conseguia parar de pensar nisso. Não há lanche por aqui, a única coisa na cozinha são tangerinas - que temos comido umas três por dia - e o jantar... fiquei mesmo desconsolada. Eu já à espera de me saciar desde as 15:30 e, às 19:30, servem o que suspeito ser pedaços de cabeça de porco. À primeira dentada, apanho um dente preto na boca, e a partir daí até me custou comer só o arroz com molho. Salvou-me depois uma banana-maçã mas, de qualquer modo, perdi o apetite...

Moçambique #32


18-05-2012

O Frei dá aulas, duas vezes por semana, na Maxixe, de filosofia e, por isso, tivemos a manhã livre enquanto ele lá esteve. Já estou habituada ao horário de cá e acordei, na mesma, às 7:00.

Tentei tomar o primeiro banho de água quente, pondo uma resistência - um ferro que aquece quando ligado à corrente - num balde com água mas preferir não morrer electrocutada dado a primeira tentativa ter gerado muita faísca, literalmente. O mata-bicho é igualzinho aqui a qualquer outra missão: chá 5 Roses, Ricoffy, pão branco, um doce de frutas indefinidas, açúcar amarelo e manteiga.

Decidimos pôr mãos à obra e dar um jeito à sala de estudo/biblioteca. Arrumámos os livros e revistas, encontrando pelo meio centenas de folhas e papéis variados: convites, panfletos, contabilidades, correspondência... Tudo misturado, nada organizado. Só para separar tudo e limpar um pouco foram umas três horas, com muitas mais para vir. Se não montam um sistema básico, com a constante mudança de direcção da casa entre os Freis, tudo se perde e nada se encontra... Acho que o mais necessário é, primeiro, um caixote do lixo. Não há necessidade de terem convites para casamentos de há dez anos, por exemplo. Não culpo os que estão cá, mas também é preciso alguem que se dê ao trabalho de identificar os problemas, planear um caminho e começar a concretizar, mesmo que aos poucos. Nos tempos livres, continuo a tratar disto. Talvez tenha mais de gestora em mim do que aquilo que penso.

De tarde, fomos conhecer as actividades circundantes e as pessoas com quem vamos estar. Fomos primeiro às velhinhas, história que já conhecíamos, muito triste. O Frei diz que elas se queixam muito mas duvido que lá vá alguém com regularidade para que depois os problemas não lhe caiam todos de uma vez em cima...

Passámos no internato e na escola. Falámos com umas alunas que disseram que podíamos começar por ir, às 19:30, durante uma hora, de Domingo a 5ª feira, à sala onde estudam a seguir às aulas e estar lá para tentar tirar alguma dúvida. Encontrámos a Irmã responsável pela parte pedagógica que se vai reunir connosco 2ª feira de manhã para dizer o que é melhor fazermos. Queixou-se que o tempo era curto, coisa que já me irrita ouvir, e não parecia muito feliz. Compreendo que queira mais gente, mais tempo mas, sendo nós as primeiras a vir para aqui, só podemos relatar a posteriori o que foi mal e bem feito para tentar tirar o máximo partido de futuras vindas missionárias. Não sei até que ponto é que tão pouca gente tem tempo para atender a todas as necessidades mas talvez pudessem investir em contratar pessoal para vir para cá, ou ter isto dos voluntários mais estruturado. Conheço muita gente que gostaria de vir trabalhar em sítios assim mas que pouco sabem e menos são informados. Nós, viemos completamente às escuras e este é um sítio com tanto potencial! Vou discutir isto ao longo dos dias com o Frei Viegas e depois com o Frei Vítor, em Portugal. Só o Frei Viegas é professor, director da escola, responsável da missão e padre responsável por 50 paróquias!

Ele ofereceu-nos um livro escrito por um Frei italiano que cá esteve muito tempo chamado "Apontamentos Históricos" sobre a missão no distrito de Homoíne, que comecei a ler ao fim do dia. Conta as verdadeiras peripécias, empreitadas e obstáculos na construção desta missão e que me fez, mais ainda, querer continuar a desenvolvê-la.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Moçambique #31


Homoíne, Inhambane, Moçambique


17-05-2012

Nova aventura em Homoíne e haverá muito que fazer aqui!

O Frei Viegas é um homem muito preocupado com os destinos desta missão, pelo menos é o que aparenta neste primeiro dia de convívio. Só cá está desde Janeiro, mas desdobra-se em actividades para ter a certeza que vários pedidos de diferentes proveniências são atendidos.

Começou a revitalizar a casa onde estamos, que lamentou estar muito degradada quando cá chegou, e vê-se que se preocupa com o sentido estético e o conforto destas casas, que também faz muita diferença. Por todo o sítio que passa, fala dum novo projecto, dum arranjo que precisa de ser feito, do que ficou por fazer... mas há sempre duas limitações maiores: o dinheiro e o pessoal.

Também já apostou muito na horta aqui da missão e nas machambas em Mubalo, a 8 km daqui. Têm lá uma casa no meio do mato onde guardam os instrumentos para trabalhar no campo e já começaram a plantar arroz, couve-repolho, pimento, tomate, milho e feijão. Sendo que uma das escolas que funciona aqui é de agro-pecuária, nada melhor que estagiar os alunos na machamba, colhendo depois para alimentação dos mesmos e receitas para a missão. É preciso investir mais nesta área, com tanto hectare para plantar! Quando lá fomos, encontrámos um grupo de alunos nessa casa, que lá tinha estado uma semana, só a trabalhar na machamba, vivendo depois na casa sem electricidade e só com uns colchões no chão. Pobres coitados, não há-de ter sido fácil. Mas pus-me logo à conversa com o Frei porque esta casa tem o potencial para ser um paraíso. Quando digo que é no mato... é mesmo no meio de nenhures e apenas a uns 15 minutos da missão. Estávamos lá ao pôr-do-sol e foi dos cenários mais idílicos que vi na minha vida. Não se vê um único poste de electricidade, um único sinal de civilização, a não ser a machamba e uma ponte por cima dum riacho, com coqueiros a perder de vista. E depois, esta casa, grande e branca, com uma varanda onde muitos pagariam, e bem, para estar. Vamos fazer disto o Hotel V, como ele diz! Já ando a sonhar, vir aqui reabilitar isto.

Fomos acompanhados por um senhor da Caritas e uma voluntária, com a qual estivemos de manhã. Ela, milanesa, está em regime voluntário por um ano em Moçambique, indo de escola em escola de uma ponta à outra do país, para fazer um acompanhamento da situação, trabalho que ele faz sempre sozinho. Durante a manhã, estivemos com ela enquanto foi a quatro casas vizinhas onde vivem ex-alunos da escola de agro-pecuária para ter feedback e saber como tem corrido a vida deles até agora. Nenhum se arrependia de lá ter estado, mas ainda estavam em casa, só tinham ainda trabalhado lá e não fora. Diga-se também que lá podem entrar com 14 anos e sair com 17, e este curso já técnico serve de equivalência aos 8º, 9ºe 10ºs anos e podem depois continuar a estudar noutras áreas.

O trabalho do homem da Caritas pareceu-me muito apelativo. Basicamente ele é consultor destas escolas em que a Caritas investe e dá apoio pedagógico, de gestão, e confirma que o dinheiro está a ser utilizado onde é mais necessário.

Ao fim do dia, temos banda sonora, dos mais de 6000 alunos que circulam por aqui, das campainhas da escola e dos cânticos dos mais novos. Estar na varanda, a ler o Equador, faz este país entranhar-se em mim.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Moçambique #30


16-05-2012

Chegado o dia de mudança para outras paragens. Fizemos a mala ao acordar e fomos para a escolinha, carregadas com sacos, no chapa, com os presentes para eles. Conseguimos chegar a tempo o lanchinho a meio da manhã e distribuímos o bolo e sumos que tínhamos preparado na tarde anterior. Não sobrou nada!

As titias já deviam ter dito que ía ser o nosso último dia pois alguns estavam com uma cara muito tristonha. No recreio, vieram-se sentar ao meu colo uns que nunca o tinham feito, dar-me a mão e fazer festinhas e até vi os dentes de uns que nunca sorriam quando lhes fazia cócegas. Na sala, olhei para cada um deles com olhos de ver e para tentar decorar cada uma destas carinhas doces. Treinaram escrever os números de um a dez e eu não conseguia deixar de estar feliz por estar ali com eles, apesar de alguns números, na sua perspectiva, serem exactamente o mesmo que circunferências e outras formas geométricas mais indefinidas.
No final, distribuí os saquinhos e, claro, o que gostaram mais do que estava lá dentro foram as pipocas!

Mas a falta de uma cara na sala fazia-se sentir, dum menino chamado Cléber que é o que fala mais, dança mais, canta mais e conta as histórias mais imaginativas. Soube que, no dia anterior, pouco depois de termos saído para a Maxixe, ele tinha sofrido um ataque epiléptico ali mesmo. O amigo do lado tinha percebido que ele não estava a brincar e conseguiu amparar a queda e o Cléber acabou por não se magoar. A titia disse que fez o que pôde, no seu estado de pânico controlado, foi chamar as outras e nada mais puderam fazer do que ficar ali com ele até recuperar. Ainda foram tentar chamar o pai à escola secundária, que não estava, mas acabou por chegar, eventualmente, e levaram-no para o hospital. Amanhã telefono à titia a saber se há notícias, não consegui deixar de pensar nele o tempo todo.

Almoçámos com as Irmãs, as chamuças feitas no dia anterior, e conversámos muito sobre o que a Irmã Teresa tinha feito pelos meninos e meninas de Cumbana. "Bebé que não chora, não mama" e a Irmã Teresa faz-se ouvir muito bem! Acho imensa graça ela a dizer que já mandou cartas para toda a gente importante em Portugal, a mostrar este projecto, incluindo deputados e muitas, muitas equipas de futebol. Também costuma enviar fotografias, mas que não manda como as outras fazem, com "os meninos sujinhos, porque cá eu esforço-me para que eles não andem assim!". Aconselhámos enviar para o Cristiano Ronaldo, que não conhecia. Quem tinha pago a maior parte da escolinha tinha sido um espanhol e quem também está muito empenhado é um senhor que trabalha no Naval. A descrição dela da visita à Figueira da Foz, a estadia num hotel com piscina e a ida "de avião" da Figueira ao Porto, como agradecimento do senhor pelo trabalho que tem feito, é uma pérola.

Ainda tivemos que ir à Maxixe levantar dinheiro, que a Joana queria já deixá-lo à escolinha, e acabámos por nos atrasar tendo o Frei Abel que ir à sua vida e ficou a partida adiada para amanhã de manhã.

Acabou por calhar bem porque aproveitámos o tempo para descansar, que estávamos mortas, para escrever, organizar e fazer backups de fotografias para que tudo esteja preparado para a nova aventura.

Estive a ver um panfleto turístico no carro da Irmã e fiquei impressionada com os números moçambicanos. Para o tamanho que tem este país, 800 mil km2 , só tem 20 milhões de pessoas das quais 80% vivem da agricultura de subsistência, só um quarto sabe falar português, e mais de metade tem menos de 14 anos! Impressionou-me muito. É um país com todo o potencial para ser gigante mas também me tenho andado a aperceber que são os próprios moçambicanos que têm que fazer mexer o país, não são ajudas externas. Sinto que eles prezam muito a sua independência mas que muitos também são nostálgicos e gostariam que alguém começasse a investir num futuro melhor para todos.